Pelos caminhos da Tucsia
Já ouviu falar da Tuscia (túxia)? Até pouco tempo atrás, eu também não. No mês de aniversário da Efe., visitamos essa idílica região italiana ainda a salvo do turismo de massa
Por Johny Mazilli
Enquanto Roma arde no calor infernal do verão, com zilhões de turistas derretendo vivos por horas a fio espremidos em filas intermináveis, pagando preços extorsivos para visitar monumentos manjados, driblando golpistas e batedores de carteira, a pouco mais de 130 km ao norte da capital italiana reinam a paz e o sossego, em meio a belíssimas vilas renascentistas, vinhedos, olivais, campos de girassóis, águas termais, cascatas de calcário, um enorme lago vulcânico, ruínas etruscas e estradinhas sinuosas e tranquilas.
Mas onde fica isso? Na Tucsia, uma região histórica de antiquíssimos assentamentos etruscos, um povo que formou uma grande civilização na Itália antiga entre os séculos 9 e 1 AC na Etrúria, atual Toscana, norte do Lazio, oeste da Umbria e às margens do Mar Tirreno. Os romanos chamavam esse povo, à época bastante avançado, de “Tusci” ou “Etrusci”, o que deu origem ao nome "Tuscia". Invenções e inovações comumente atribuídas aos romanos na verdade se originaram na Tuscia, como a produção de vinho, um dos pilares da cultura e da economia italiana até hoje.
A cidade mais importante na região é a bela Viterbo, situada aos pés dos Montes Ciminos e conhecida como a "Cidade dos Papas", por ter servido como sede papal no século 13. Na paisagem, despontam lindas vilas medievais erigidas em rocha vulcânica de tufo. Entre elas destaca-se, na província de Viterbo, a incrível Civita di Bagnoregio, "a cidade que morre" - la città che muore - por estar empoleirada sobre uma colina de argila e tufo que sofre implacável erosão pelo vento e pela chuva, que reduzem progressivamente a área do vilarejo. A antiga estrada ruiu, transformando Civita em uma ilha de pedra, hoje acessível apenas pela travessia de uma passarela. Um lugar onde o tempo parece ter parado.
A bela Farnese é famosa por ser o berço da nobre e poderosa dinastia Farnese, que teve entre seus membros papas, importantes comandantes militares e que também celebrizou-se por ter servido de cenário para a famosa série de TV "As Aventuras de Pinóquio", de 1972. Seu nome vem de “Farnie”, um tipo de carvalho comum nas florestas ao redor.
Pitigliano, a “Pequena Jerusalém”, é uma vila medieval espetacular na província de Grosseto, encravada num penhasco de rocha de tufo e famosa por sua arquitetura única, que parece brotar da própria montanha e por sua rica história ligada aos etruscos e à comunidade judaica.
A 30 km de Pitigliano encontra-se Bolsena, uma charmosa vila com pouco mais de 4 mil habitantes, famosa por ser o berço do Milagre Eucarístico. Defronte à cidade estende-se o grande Lago di Bolsena, com 114 km2, o maior lago de origem vulcânica da Europa, formado pelo vulcão Vulsini. Após a última erupção, há cerca de 370 mil anos, o topo do Vulsini desabou e formou uma enorme cratera que, posteriormente, se encheu com a água das chuvas e de nascentes. Com o tempo, tornou-se um balneário para diversas cidades situadas às suas margens, como Capodimonte, Marta, Bolsena, Montefiascone, Gradoli, Valentano e San Lorenzo Nuovo. Suas águas translúcidas e amenas são muito procuradas por banhistas, remadores e velejadores. Um detalhe curioso: o vulcão Vulsini não está extinto, apenas dormente. Do lago emergem a Isola Bisentina, com ricas capelas históricas e a Isola Martana, de grande importância histórica ligada a lenda de Santa Cristina, padroeira de Bolsena.
Há também badalados balneários à beira-mar, como Porto Ercole e Porto Stefano, com suas águas de azul anil. Porto Ercole tem forte conexão com a arte – foi lá que morreu e foi enterrado, em 1610, Michelangelo Merisi da Caravaggio, um dos mais notáveis pintores do barroco. Não à toa, no início do século 20 uma onda de pintores, escritores e cineastas começaram a ser atraídos para a Tuscia, em busca de inspiração.
Outro incrível atrativo dessa região é a insólita Cascate del Mulino, uma formação única de travertinos de calcário branco e águas de um lindo e intenso azul celeste. Distante 6 km da pequena vila de Saturnia, o local é também conhecido como Termas de Saturnia. A cascata se origina de um fenômeno geológico peculiar. Sua água vêm das chuvas que caem no Monte Amiata, de 1.738m de altitude. A chuva se infiltra no solo e, durante longos 40 anos, atravessa lentamente as camadas de terreno calcário no subsolo até atingir 700 metros de profundidade. Durante esse demorado percurso, a água é aquecida pela atividade geotérmica e enriquecida com minerais. Após emergir da nascente voltando à superfície, ela se torna um riacho com 2 km de extensão a céu aberto até formar a cascata. A água, com temperatura constante de 37,5ºC, tem características medicinais únicas: é sulfurosa, carbônica, sulfatada e bicarbonato-alcalino-terrosa, com perceptível odor de enxofre. Graças ao fluxo constante de 800 litros por segundo, renova-se continuamente de forma natural, mantendo-se sempre limpa.
As colinas onduladas da região são recobertas de olivais, aveleiras e vinhedos. Quando o assunto é o vinho, brilham uvas menos conhecidas, como as variedades brancas Malvasia Puntinata, uma das mais nob
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