Ricardo Amorim: o economista mais influente do país
Eleito pela revista Forbes como um dos 100 brasileiros mais influentes, Amorim é economista, empreendedor e comunicador, além de se destacar como uma grande voz nas redes sociais e na imprensa sobre tendências de mercado
Ricardo Amorim construiu uma trajetória que atravessa diferentes universos. Economista, empreendedor, jornalista e comunicador, tornou-se uma das principais referências brasileiras quando o assunto é economia, negócios e transformação. Sua experiência combina a atuação como tomador de decisões no mundo empresarial com décadas dedicadas a traduzir temas complexos para um público amplo.
Essa combinação de experiências é, para Amorim, justamente um de seus principais diferenciais. Ao longo da carreira, ele esteve à frente de empresas, participou de projetos em diferentes setores e se consolidou também na comunicação, tornando-se conhecido por explicar economia, inovação, empreendedorismo e finanças sem recorrer ao excesso de jargões.
Em entrevista à Efe, o economista discorre sobre o que o Brasil precisa fazer para crescer, os setores que podem gerar oportunidades nos próximos anos, os impactos da inteligência artificial sobre empresas e profissionais e as mudanças que a tecnologia deverá provocar na organização do trabalho.
Também revisita momentos decisivos de sua trajetória, comenta sobre liderança, sucesso, família e revela uma visão de futuro baseada menos em previsões e mais na capacidade de adaptação e execução.
Os caminhos para o Brasil
Para Amorim, não existe uma única transformação capaz de resolver os principais problemas estruturais da economia brasileira. O caminho passa por uma combinação de medidas, começando pela educação.
“Se a gente quer reduzir a pobreza e melhorar a distribuição de renda no Brasil, a gente precisa melhorar a qualificação das pessoas”, afirma. Para ele, a baixa qualificação limita tanto a renda dos trabalhadores quanto a produtividade da economia.
Outro ponto fundamental é a questão fiscal. Na avaliação do economista, uma redução sustentável dos juros depende do enfrentamento da dívida pública e do déficit fiscal, o que exigiria uma revisão significativa dos gastos públicos.
Entre os caminhos possíveis, ele cita reformas e redução de despesas ineficientes. O resultado esperado seria a criação de condições para reduzir a dívida e os juros e, consequentemente, estimular investimentos produtivos, produtividade, geração de renda e desenvolvimento.
O terceiro eixo, a criação de um grande projeto de geração de valor a partir das vantagens competitivas brasileiras. O agronegócio aparece como um dos principais exemplos, mas Amorim defende que o país avance na cadeia de produção.
O Brasil, segundo ele, é muito forte na produção agropecuária, mas ainda concentra boa parte de suas exportações em produtos básicos. Agregar valor, fortalecer a indústria e investir nos setores do futuro, especialmente inteligência artificial, seriam movimentos fundamentais.
Onde estarão as oportunidades
Quando olha para os próximos 25 anos, Amorim identifica no agronegócio uma das áreas com maior potencial de crescimento.
A combinação de disponibilidade de terras, água doce, ganhos de produtividade e abertura de novos mercados coloca o Brasil em posição privilegiada. Se a China foi um dos grandes mercados conquistados pelo agronegócio brasileiro nas últimas décadas, ele vê novas possibilidades na União Europeia.
No curto prazo, porém, outros segmentos podem ganhar força. Uma queda mais significativa dos juros, por exemplo, teria impacto direto sobre os setores de construção e mercado imobiliário.
A educação também aparece entre as grandes oportunidades. “Num mundo em transformação cada vez mais acelerada e o Brasil muito atrasado em qualificação de mão de obra, as oportunidades no setor de educação são absolutamente gigantescas”, avalia.
O risco que vem de fora
Nem todas as transformações são oportunidades. Amorim também chama atenção para um possível risco relacionado à inteligência artificial. Para ele, a atual onda de investimentos em IA guarda algumas semelhanças com a bolha da internet no final dos anos 1990. A expectativa é de que, em algum momento, parte dessa valorização seja revista. “Eu acredito que a IA vai acontecer a mesma coisa, já está acontecendo a mesma coisa. Em algum momento a bolha vai estourar”, afirma.
Na visão do economista, isso poderia provocar uma crise financeira global, com impactos negativos também sobre o Brasil. Para os próximos dois ou três anos, ele considera esse um dos principais riscos econômicos externos para o país.
A empresa do futuro
Se a inteligência artificial representa um desafio, ignorá-la pode ser ainda mais arriscado. Amorim acredita que profissionais e empresas que não compreenderem as transformações tecnológicas poderão ser ultrapassados por aqueles que souberem utilizá-las a seu favor.
O primeiro passo, segundo ele, é entender as mudanças. O segundo é desenvolver agilidade para reagir. “Quanto mais rápido as coisas mudam, menos tempo a gente tem para poder ter certezas no processo de tomada de decisão”, explica. Essa transformação também deverá alterar profundamente a estrutura das empresas.
Ricardo recorre a uma comparação histórica para explicar o modelo tradicional de hierarquia: no Exército Romano, informações e ordens percorriam diferentes níveis até chegar ao comando. O problema, segundo ele, é que estruturas hierárquicas muito extensas podem perder informação ao longo do caminho.
Com sistemas de informação cada vez mais centralizados e inteligência artificial capaz de levar dados diretamente às pessoas que precisam tomar decisões, ele acredita que as camadas intermediárias das organizações tendem a diminuir. “Essas camadas do meio das empresas, desde coordenadores talvez até vice-presidentes, gradualmente vão encolher cada vez mais”, prevê. Para ele, essa pode ser uma das maiores transformações na organização do trabalho desde a Revolução Industrial.
O que a IA não substitui
A transformação tecnológica também deverá redefinir o valor das competências humanas.
Atividades artísticas, esportivas, relacionais e funções que envolvem cuidado, contato e interação humana tendem a ganhar relevância. Na área da saúde, por exemplo, Amorim vê espaço para valorização de atividades que dependem da presença e do contato.
Já funções predominantemente analíticas e tarefas que podem ser automatizadas estarão cada vez mais pressionadas pela inteligência artificial.
O desafio, portanto, não seria simplesmente competir com a tecnologia, mas aprender a trabalhar com ela.
A coragem de fazer diferente
Para empreendedores, Amorim aponta uma característica fundamental: coragem para fugir dos caminhos já percorridos. “A primeira grande questão é a coragem de fazer o que os outros não estão fazendo, porque isso evita uma competição muito maior e muito mais destrutiva”, afirma.
Ele também destaca a importância da velocidade de decisão. Para o economista, esperar por informações perfeitas pode significar perder oportunidades. “A incapacidade de decisão talvez seja uma das maiores características de quem fracassa”, ressalta.
Na sua experiência, empreendedores bem-sucedidos agem quando já possuem informação suficiente, mesmo sabendo que nunca terão todas as respostas, e demonstram persistência diante das dificuldades.
Outro atributo é a capacidade de inspirar pessoas. Amorim destaca a importância de líderes que conseguem comunicar uma visão de futuro e motivar equipes a fazer parte dela.
Uma trajetória construída pela diversidade
Curiosamente, a decisão que mais influenciou sua carreira não foi, segundo ele, propriamente profissional. Aos 15 para 16 anos, Amorim foi treinar natação nos Estados Unidos durante as férias. Acabou convivendo com atletas de alto nível e recebeu do treinador um convite para continuar treinando com a equipe. Ele não acreditou que fosse bom o suficiente e voltou ao Brasil.
Anos depois, viu Gustavo Borges, com quem havia competido, conquistar uma medalha olímpica em Barcelona, em 1992. A experiência deixou uma lição que levaria para a vida profissional: experimentar coisas diferentes pode desenvolver habilidades que dificilmente seriam adquiridas seguindo um único caminho.
Essa diversidade acabou se tornando uma marca de sua trajetória. “Experimente tudo. Faça tudo que os outros não queiram fazer, porque isso vai te dar conhecimentos mais amplos que os outros não têm e vai te trazer uma vantagem competitiva muito significativa”, aconselha.
Comunicação como diferencial
Outra grande virada veio quando aceitou o convite para se tornar apresentador de um programa de televisão. A experiência o obrigou a desenvolver uma habilidade que até então não dominava completamente: comunicar assuntos complexos de forma clara para um público amplo. Ao mesmo tempo em que acumulava experiência empresarial, passou a conviver com alguns dos principais comunicadores brasileiros.
Essa combinação, acredita, ajudou a formar um perfil pouco comum: alguém que conhece o ambiente de decisão empresarial e também consegue traduzir economia e negócios para quem não é especialista.
Sucesso tem uma métrica própria
Amorim também prefere não definir sucesso a partir dos parâmetros impostos pela sociedade. Para ele, cada pessoa deveria estabelecer sua própria métrica. “Cada um de nós tem características próprias e o que nos torna especiais é expressar o máximo dessas características únicas que nós temos”, disse.
Hoje, sua definição de sucesso está cada vez mais relacionada ao impacto que consegue gerar na vida de outras pessoas. Ele conta que frequentemente recebe relatos de pessoas dizendo que alguma informação, conversa ou trabalho seu mudou sua trajetória. “Isso, para mim, talvez seja a maior satisfação e sentimento de sucesso que eu tenho.”
Um olhar construtivo para o Brasil
Ricardo se define como uma pessoa construtiva. Não necessariamente otimista — porque considera perigoso o otimismo sem análise de riscos —, mas alguém que procura identificar possibilidades de transformação. “Eu acho que a gente tem um monte de problemas, mas um monte de oportunidades”, destaca sobre o Brasil.
Entre elas, cita a possibilidade de agregar valor ao agronegócio, ampliar a economia ambiental e explorar vantagens brasileiras em energia limpa. Para ele, o país precisa criar um ambiente de confiança e regras capazes de atrair investimentos e permitir que essas oportunidades sejam transformadas em negócios.
Trabalho, família e performance
Apesar da agenda intensa, Amorim não enxerga sua vida profissional e pessoal como universos completamente separados. “Eu não sei se a palavra que eu usaria é equilíbrio, pelo menos não no sentido de separação”, explica.
O trabalho é uma parte importante de sua vida, mas a família ocupa um lugar ainda mais relevante. Ele também atribui à paternidade uma das maiores transformações pessoais de sua vida. Tornar-se pai, afirma, mudou sua maneira de enxergar o mundo e fortaleceu o desejo de contribuir para um futuro melhor.
Para manter alta performance, aposta em hábitos básicos: dormir o suficiente, alimentar-se bem, praticar exercícios e preservar boas relações pessoais. O exercício, em particular, continua sendo importante para seu bem-estar físico e mental.
O legado
Ao falar sobre o que gostaria de deixar como legado, Amorim não cita números, empresas ou cargos. Seu desejo é ajudar pessoas a desenvolverem confiança, conhecimento e coragem para alcançar seu potencial. “O maior legado que eu gostaria de deixar é as pessoas terem a crença, a coragem e os instrumentos para serem tudo que elas podem ser.”
É uma visão que conecta sua trajetória profissional àquilo que hoje considera sua missão: ampliar possibilidades.
O futuro é para quem constrói
Para Ricardo Amorim, a tecnologia está reduzindo antigas barreiras de entrada para empreendedores. Recursos que antes estavam disponíveis apenas para grandes empresas passaram a ser acessíveis a negócios menores graças à digitalização — e a inteligência artificial acelera ainda mais esse processo.
Ele cita o surgimento de empresas extremamente valiosas construídas por equipes muito pequenas como exemplo de uma mudança que já está em curso. No fim, sua visão sobre o futuro dos negócios pode ser resumida em uma frase: “O futuro dos negócios é aquilo que a gente conseguir sonhar e conseguir executar.”
E talvez seja justamente nessa combinação entre visão e ação que esteja uma das principais mensagens de Ricardo Amorim para um mundo em transformação: não basta prever o futuro. É preciso estar preparado para construí-lo.
Colunista
Glaucia ArboleyaNewsletter da efe
Alphaville na sua caixa de entrada
Negócios, network e lifestyle da região — uma seleção da redação, toda semana.
Pronto! Confirme a inscrição no seu e-mail.