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Azeites

O ouro líquido brasileiro

Contra todas as probabilidades, e em pouquíssimos anos, o Brasil passou a produzir alguns dos melhores azeites do mundo. Prêmios e medalhas não faltam para provar isso

Publicado em 31/08/2026 · atualizado há 2 semanas · 27 min de leitura

O ouro líquido brasileiro
A produção brasileira de azeites extravirgens vem ganhando espaço e reconhecimento pela qualidade — Foto: Divulgação

Esqueça o Chile, Portugal ou a Itália. Alguns dos melhores azeites do mundo hoje podem estar vindo daqui mesmo, do quintal de casa.

Nos últimos anos, um grupo de produtores brasileiros rompeu a barreira da desconfiança internacional e colocou o país no mapa da olivicultura de excelência. De olivais cultivados a quase dois mil metros de altitude na Serra da Mantiqueira às colinas do Rio Grande do Sul, passando pelas montanhas do interior de São Paulo, o azeite extravirgem nacional deixou de ser promessa para se tornar colecionador de medalhas nos concursos mais exigentes do planeta.

O feito é ainda mais extraordinário porque, à primeira vista, o Brasil não tinha quase nada a seu favor. A oliveira é uma espécie nativa da região mediterrânea, moldada por condições muito diferentes das encontradas em boa parte do território brasileiro. Precisa de frio em momentos decisivos do ciclo, enquanto excesso de umidade e chuvas em períodos críticos aumentam os riscos do cultivo. Por aqui, foi preciso descobrir onde plantar, quais variedades se adaptariam e como fazê-las produzir com qualidade em condições que os países de tradição milenar não enfrentam da mesma maneira. Estudos da Embrapa ainda tratam a adaptação de cultivares e os riscos climáticos como questões centrais para a expansão sustentável da cultura no país.

“Para mim, produzir azeite no Brasil é fruto de um milagre. E chegar na garrafa é mais milagre ainda”, ressalta Herbert Sales, proprietário da Vinícola Essenza e produtor dos azeites Mantikir, marca que figura entre as mais premiadas da atualidade.

E há outra desproporção impressionante: somos praticamente recém-chegados a uma história de milhares de anos. Pesquisas com oliveiras começaram décadas atrás, mas foi somente em fevereiro de 2008, em Maria da Fé (MG), que a Epamig realizou a primeira extração de azeite extravirgem brasileiro. Foram apenas 40 litros. A extração comercial na região começaria anos depois, em 2011. Ou seja: parte dos azeites que hoje enfrenta (e vence) produtores centenários no exterior nasceu de uma cadeia comercial que mal chegou à maioridade.

Pequeno na quantidade, gigante na qualidade

De lá para cá, a curva subiu depressa. A safra de 2026 chegou a cerca de 1,4 milhão de litros, recorde nacional, depois de um 2025 especialmente difícil para os olivais. O Rio Grande do Sul concentra a maior fatia da produção, enquanto a Serra da Mantiqueira, especialmente Minas Gerais e São Paulo, consolidou-se como outro grande polo de azeites premium.

Ainda assim, diante do consumo brasileiro, é quase uma gota. Na safra 2024/2025, o país importou 80.768 toneladas de azeite, cerca de 9% das importações mundiais, segundo o Conselho Oleícola Internacional (COI). E a dependência externa cresce: nos primeiros seis meses de 2025/2026, as importações avançaram 40,5%, com Portugal respondendo por 62% do volume vindo de fora.

“O consumo brasileiro continua muito baseado em preço, acidez impressa no rótulo e percepção de marca, quando frescor, origem, safra, conservação e avaliação sensorial são mais importantes para entender qualidade”, avalia Rafael Marchetti, mestre de lagar e diretor da Prosperato.

É aí que está o paradoxo do nosso ouro líquido. O Brasil ainda produz muito pouco, mas aprendeu cedo a produzir muito bem. Um estudo publicado na Revista de Política Agrícola, ligada ao Ministério da Agricultura e à Embrapa, já apontava que a produção comercial nacional representava menos de 1% do volume consumido no país, ao mesmo tempo em que os azeites extravirgens brasileiros conquistavam espaço justamente pela qualidade.

E o cardápio brasileiro está longe de se resumir a “azeitona verde ou preta”. Existem centenas de cultivares de oliveira catalogadas e preservadas internacionalmente, cada uma capaz de entregar características próprias de aroma, amargor, picância, intensidade e composição. Arbequina, Arbosana, Koroneiki, Coratina, Picual, Frantoio, Grappolo e Manzanilla são apenas algumas das variedades que encontraram espaço nos olivais brasileiros. Descobrir quais delas funcionariam em cada terroir foi — e continua sendo — parte dessa aventura. O Conselho Oleícola Internacional mantém uma rede mundial de bancos de germoplasma justamente para preservar essa enorme diversidade genética.

Mas é quando se troca a régua da quantidade pela da qualidade que a história brasileira realmente impressiona.

MANTIKIR

A elite do azeite brasileiro

Em um cenário que muda a cada nova competição, não existe um ranking único capaz de definir os melhores azeites do mundo. Mas alguns nomes vêm se destacando pela recorrência e relevância dos resultados nos principais guias e concursos internacionais. E, nesse universo, medalha de ouro nem sempre representa o topo: competições também concedem distinções mais seletivas, como Best in Class, Best of Country e Best in Show, que reconhecem os grandes destaques por categoria, origem ou na classificação geral.

Sem ordem de classificação, reunimos alguns dos principais nomes brasileiros nas avaliações mais exigentes do mundo.

  • Estância das Oliveiras (RS) — mais de 500 premiações internacionais desde 2019. Foi a 3ª empresa mais premiada do mundo no EVOO World Ranking 2025 e, em 2026, o monovarietal Frantoio recebeu 100/100 e Best in Show no European International Olive Oil Competition (EIOOC), na Suíça.
  • Fazenda do Azeite Sabiá (SP/RS) — soma 192 prêmios internacionais em apenas cinco safras. Alcançou 98 pontos no Flos Olei 2026, recorde brasileiro no guia, além de presença recorrente no Top 100 do EVOOLEUM e importantes distinções no EVO IOOC.
  • Prosperato (RS) — uma das pioneiras da produção premium nacional, acumula mais de 370 prêmios internacionais desde 2016. Foi a 4ª empresa mais premiada do mundo no EVOO World Ranking 2024 e chegou a 97 pontos no Flos Olei.
  • Mantikir / Essenza (MG) — já reúne quase 90 premiações desde 2023. O Summit Premium alcançou 93 pontos e a 11ª posição no EVOOLEUM 2026, figurando entre os grandes destaques recentes da produção brasileira de altitude.
  • Lagar H (RS) — soma mais de 90 reconhecimentos internacionais e alcançou 93 pontos no Flos Olei. Também acumula distinções em competições como EVO IOOC e TerraOlivo.
  • Capolivo (RS) — acumula mais de 40 premiações. Em 2026, conquistou três medalhas de ouro no EVO IOOC, na Itália, e três Grand Prestige Gold no TerraOlivo.
  • Milonga (RS) — ganhou projeção internacional com o Ana Terra 1835, escolhido melhor coupage (blend) do Hemisfério Sul no EVO IOOC 2026, uma das principais distinções da competição.
  • Azeite da Pedra (MG) — estreou comercialmente já entre os grandes: ficou entre os dez melhores azeites do TerraOlivo 2026 e recebeu o reconhecimento de melhor brasileiro na competição.
  • Carcará (MG) — outro nome da nova geração mineira, foi eleito Melhor Azeite da América do Sul no EVO IOOC 2026, também em sua primeira safra comercial.
  • Bene (SP) — produzido em Bom Sucesso de Itararé, destaca-se também por ser orgânico certificado. A safra 2026 conquistou cinco reconhecimentos internacionais, incluindo medalhas de ouro em competições no exterior.
  • Orfeu (MG) — produzido na Fazenda Rainha, em Poços de Caldas, acumula premiações internacionais, entre elas Grand Prestige Gold no TerraOlivo e Best in Category no European IOOC, além de ouro no Anatolian IOOC.
  • Al-Zait & Co. (RS) — terminou 2025 na 39ª posição entre as empresas no EVOO World Ranking, ajudando a ampliar a presença nacional entre os produtores mais premiados do planeta.

Novos nomes no olival

E a lista não para de crescer. O Prêmio Brasil Artesanal de Azeite de Oliva 2026, promovido pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), ajuda a revelar uma nova leva de produtores. Entre os finalistas deste ano aparecem nomes como Cadenza, Aiu, Alto das Oliveiras, Potenza, L'Az e Viridi, ao lado de marcas já reconhecidas, como Sabiá, Mantikir e Lagar H. O prêmio nacional segue uma régua diferente das competições internacionais citadas acima, mas funciona como um bom termômetro de um setor que continua se expandindo e mostra que a próxima geração do azeite brasileiro já está chegando.

O grande segredo da qualidade é o tempo – e ele é bem curto

Fazer um grande azeite é, em boa medida, um exercício de preservação. A indústria não consegue acrescentar à azeitona aromas, frescor ou compostos que ela não tenha produzido no campo; consegue, sobretudo, evitar perdê-los pelo caminho. E essa corrida começa antes mesmo de o fruto deixar a árvore.

Esse acompanhamento de todas as etapas é apontado por Carolina Capoani, sócia da Capolivo, como uma das vantagens da produção nacional. “O principal diferencial do azeite brasileiro é o cuidado em cada etapa da produção. Como nossa olivicultura é relativamente jovem e de menor escala, conseguimos acompanhar de perto todo o processo, do manejo do olival à colheita, extração e envase. Essa atenção aos detalhes, aliada à tecnologia e à pesquisa, permite produzir azeites extremamente frescos, com alta qualidade e identidade própria”, observa.

Há um princípio que une todas as marcas ouvidas nesta reportagem: a colheita precoce, com a azeitona ainda verde ou em estágios iniciais de maturação. A escolha reduz o rendimento em óleo, mas busca preservar características valorizadas nos extravirgens de alta qualidade.

Rafael Sittoni Goelzer, sócio-diretor da Estância das Oliveiras, contrapõe essa estratégia à produção voltada para volume. “Existem países que produzem azeite há centenas de anos e que normalmente estão mais preocupados com a quantidade produzida do que com a qualidade. Eles fazem a colheita com a azeitona mais madura. Isso aumenta entre 20% e 30% a quantidade de azeite produzido, mas diminui muito a qualidade, tanto nos níveis de polifenóis e antioxidantes quanto nas notas de sabor”, aponta.

Na Lagar H, Glenda Haas explica o que se busca na outra ponta dessa escolha. “Optamos por uma colheita precoce, quando o fruto está mais verde, porque é nesse momento que encontramos maior concentração de aromas, sabores e compostos fenólicos”, afirma a fundadora e diretora da marca.

Mas colher cedo não significa simplesmente escolher uma data antecipada no calendário. O ponto é definido a partir do comportamento da fruta. “Algumas parcelas destinadas aos azeites mais verdes e intensos são colhidas mais cedo. Por isso, não trabalhamos apenas com uma data fixa de calendário, pois acompanhamos a fruta e decidimos lote a lote quando colher”, explica Rafael Marchetti, especialista em azeites, mestre de lagar e diretor da Prosperato.

Na Estância das Oliveiras, Goelzer relaciona essa escolha também à composição do produto. “Quando optamos por colher a azeitona mais verde, automaticamente elevamos muito os níveis de polifenóis e antioxidantes. Ele se torna um azeite essencialmente medicinal. Então, existe uma diferença muito grande”, reforça.

Foto: Tégis Silva / Azeites Mantikir

Da árvore ao lagar

A partir da colheita, a lógica muda: o que levou meses para ser construído pela planta pode começar a se perder em poucas horas. Separada da árvore, a azeitona continua biologicamente ativa e é extremamente perecível. Demora, frutos danificados e temperaturas inadequadas favorecem oxidação e fermentações capazes de comprometer o azeite antes mesmo da extração.

É por isso que olival e lagar próximos se tornaram uma vantagem importante da produção premium. Na Estância das Oliveiras, a média entre a retirada da fruta e o processamento é de apenas duas a três horas. Rafael Goelzer resume a urgência de maneira mais eficiente que qualquer manual: “colheu a azeitona? Ligue um cronômetro. Tem 24 horas para processá-la. Quanto menor for esse intervalo, melhor será a qualidade do azeite”.

No Mantikir, Herbert Sales descreve o mesmo inimigo a partir da fruta: depois de perder o contato com a árvore, a azeitona começa rapidamente a oxidar e degradar. Por isso, da colheita à extração, a preocupação é manter sua sanidade e controlar a temperatura, inclusive durante a passagem pela termobatedeira.

A pressa, portanto, não é produtiva, é qualitativa. Não se trata de fabricar mais rápido, mas de impedir que a matéria-prima chegue pior à etapa seguinte.

Divulgação / Azeite Prosperato

Tecnologia

No lagar moderno, a imagem romântica de azeitonas simplesmente “prensadas” dá lugar a um processo de precisão. Moagem, formação da pasta, separação do óleo e controle de tempo e temperatura são conduzidos para extrair o azeite sem destruir justamente os componentes responsáveis por parte de seus aromas e características sensoriais. E aqui aparece uma das vantagens paradoxais do Brasil: estreou tarde na olivicultura, mas muitos de seus produtores já chegaram à indústria com tecnologia contemporânea.

O Sabiá é um bom exemplo. Em cinco anos, a marca estruturou um protocolo que combina manejo do pomar, sanidade da fruta, rapidez na extração, uma planta de alta tecnologia no Rio Grande do Sul, limpeza diária rigorosa das máquinas e do lagar e uma metodologia incorporada com o consultor italiano Nicolangelo Marsicani. Mas seus fundadores, Bob Costa e Bia Pereira, chamam atenção para algo importante: a tecnologia sozinha não faz o azeite. O diferencial, dizem, é “um conjunto de fatores que vai desde o trato do pomar, a fim de garantir uma fruta muito saudável, passando pela alta tecnologia no processo de extração, até a adoção de um cuidado extra no envase — com garrafa especial e bico que evita a entrada de oxigênio”.

A Prosperato acrescenta outra camada a esse controle. Depois da extração e da filtragem, os lotes são mantidos separadamente em tanques de inox e continuam sendo avaliados sensorialmente. É essa análise que ajuda a definir quais têm identidade para chegar sozinhos à garrafa como monovarietais e quais poderão participar de assemblages. A máquina extrai; nariz e paladar continuam tomando decisões.

O curioso é que nem mesmo um azeite excepcional que acaba de sair do lagar está a salvo. A qualidade continua sendo consumida pelo tempo, especialmente quando o produto é exposto a calor, luz e oxigênio. É por isso que tanques de aço inox, ambientes controlados, filtragem e embalagens escuras aparecem repetidamente entre os produtores de alta qualidade.

Na Capolivo, Carolina Capoani explica que o cuidado continua depois da extração: “o azeite é filtrado, armazenado em tanques de aço inox sob condições controladas, protegido da luz e do oxigênio, até o momento do envase. Utilizamos garrafas escuras, que ajudam a proteger o produto da luz e preservar suas características”. A Lagar H vai além e utiliza nitrogênio nos tanques, reduzindo o contato do azeite com o oxigênio; trabalha ainda com sala climatizada e envase de acordo com a demanda. O Sabiá estendeu o controle até a logística: mantém rastreabilidade de mais de 120 mil garrafas e monitora temperatura, luz e umidade até a entrega ao ponto de venda.

Essa cadeia ajuda a entender outra vantagem frequentemente apontada pelos produtores brasileiros: frescor. O país colhe no primeiro semestre, em calendário oposto ao das grandes origens do Hemisfério Norte, e a proximidade entre produção e mercado doméstico encurta um percurso que, no importado, pode envolver meses de armazenamento, transporte internacional e distribuição. Marchetti vê justamente aí uma oportunidade. “O Brasil dificilmente vai competir no curto prazo com Espanha, Itália, Grécia ou Tunísia em volume e preço, e talvez esse nem deva ser o objetivo. Nossa oportunidade está em produzir azeites premium, frescos, com identidade de terroir e valor agregado”, diz.

Não existe uma receita brasileira

Também seria simplista imaginar que todos esses azeites perseguem o mesmo resultado. O produtor ainda pode decidir quando colher, como extrair e se apresentará aquela variedade isoladamente ou combinada a outras.

A Capolivo escolheu trabalhar apenas com monovarietais, deixando que Arbequina, Koroneiki, Picual, Coratina e Frantoio expressem individualmente suas características. O Mantikir faz quase o oposto em seu Summit Premium — e de maneira pouco convencional: Arbequina, Grappolo, Coratina e Koroneiki são combinadas antes da extração. As proporções são definidas ainda com as azeitonas, que seguem juntas para a máquina. “Não produzimos cada azeite separadamente para misturá-los depois. Os frutos são colocados juntos nas caixas, em determinada proporção de cada variedade, e processados conjuntamente. O blend acontece na máquina, no momento em que o fruto é triturado”, explica Herbert Sales.

A busca por intensidade chega também ao rendimento. Sales relata trabalhar com cerca de 15 a 20 quilos de azeitonas para obter um litro de azeite. “Preferimos diminuir o rendimento para aumentar a intensidade na garrafa, as notas e as camadas de complexidade do produto”, afirma.

Talvez seja justamente aí que a juventude da olivicultura brasileira deixe de parecer apenas uma desvantagem. Sem séculos de tradição para repetir, os produtores tiveram de descobrir quais variedades funcionam, adaptar manejo ao clima local, importar conhecimento, testar técnicas e construir uma indústria praticamente ao mesmo tempo em que aprendiam a conhecer seus próprios terroirs.

E não há consenso absoluto nem entre eles sobre o peso de cada elemento. Sabiá atribui maior protagonismo à genética da oliveira; Prosperato enxerga na combinação de solo, umidade, amplitude térmica e comportamento das variedades a origem de perfis sensoriais particulares; no Mantikir, a altitude e as quase duas mil horas de frio são tratadas como parte central da identidade do produto.

As explicações podem variar. O ponto de encontro está no controle. Saber o que plantar, acompanhar a fruta, escolher quando colher, correr contra o tempo, dominar a extração e proteger o azeite até que ele chegue à mesa.

É muito trabalho para algo que, no fim, cabe em uma garrafa de 250 ou 500 mililitros. Mas ajuda a explicar por que algumas delas estão voltando dos concursos internacionais cobertas de ouro.

 

SABIÁ | Tudo começou com uma colherada

O Azeite Sabiá começou com uma descoberta. Em 2013, seus fundadores provaram, em Campos do Jordão, um azeite recém-produzido e se surpreenderam com o sabor de um azeite verdadeiramente fresco. Um ano depois plantaram as primeiras quatro mil oliveiras na fazenda da família, em Santo Antônio do Pinhal (SP); hoje, a produção também se estende a Encruzilhada do Sul (RS). “Foi paixão à primeira vista”, contam Bia Pereira e Bob Costa, fundadores e produtores do Azeite Sabiá.

Das duas regiões saem azeites de perfis bastante diferentes. A linha trabalha com variedades como Arbequina, Koroneiki, Coratina, Arbosana e Picual, além do Blend de Terroir. Há desde a delicada Arbequina, com notas de maçã verde, alcachofra e amêndoas, até a potente Coratina, marcada por alcachofra, rúcula, amêndoas e picância intensa; a Koroneiki traz folha de tomate, ervas recém-cortadas e pimenta verde. “Frescor, aroma e equilíbrio perfeito entre picância e amargor” são, para os produtores, a assinatura dos azeites da marca.

 

 

ESTÂNCIA DAS OLIVEIRAS | De parar de reclamar a fazer melhor

A Estância das Oliveiras, em Viamão (RS), nasceu de uma insatisfação familiar. Há cerca de 25 anos, o patriarca da família voltava de viagens ao exterior incomodado com a diferença entre os azeites que provava lá e os encontrados no Brasil. “Ele decidiu parar de reclamar e começar a produzir o seu próprio azeite para o consumo da família”, conta Rafael Sittoni Goelzer, sócio-diretor da Estância das Oliveiras. O que era para abastecer a mesa de casa virou um longo laboratório: 35 variedades foram testadas até que sete demonstrassem adaptação e qualidade suficientes. A primeira safra comercial só chegaria em 2019.

Hoje, a Estância das Oliveiras trabalha justamente com essas sete cultivares: Arbequina, Arbosana, Koroneiki, Coratina, Picual, Frantoio e Manzanilla, transformadas em monovarietais e blends. Os perfis vão dos azeites mais delicados aos intensos, com diferentes níveis de frutado, amargor e picância. Para Rafael, essa diversidade é parte importante do projeto: não basta ter uma garrafa excepcional. “O nosso objetivo sempre foi colocar o nosso azeite à prova dos mais rigorosos paladares do mundo”.

 

 

PROSPERATO | Das mudas para a garrafa

Antes de produzir azeite, a Prosperato já conhecia oliveiras. A família Marchetti mantinha um viveiro de mudas e, quando a cultura começou a despertar interesse no Sul, percebeu que precisava entender na prática como aquelas plantas se comportariam. O primeiro olival próprio foi implantado em 2011, em Caçapava do Sul (RS); dois anos depois veio o primeiro azeite. “A produção própria surgiu quase como uma consequência natural desse trabalho”, explica Rafael Marchetti, mestre de lagar e diretor da Prosperato.

A linha hoje reúne dois blends, seis monovarietais e quatro condimentados produzidos pelo método Agrumato, no qual ingredientes frescos são processados junto com as azeitonas. Entre os rótulos mais reconhecidos estão Premium Blend e os monovarietais Koroneiki, Frantoio e Coratina; no topo da seleção da safra está o Origens: Campanha Gaúcha. “Um azeite precisa ter personalidade sem perder equilíbrio”, diz Marchetti. “Nos nossos melhores lotes, buscamos exatamente isso: aromas muito nítidos, frescor, boa estrutura e identidade varietal”.

 

 

 

LAGAR H | Uma pesquisa que mudou o rumo da vida

A Lagar H, de Cachoeira do Sul (RS), começou longe dos olivais. Advogada e então radicada em São Paulo, Glenda Haas pesquisava a regulação do mercado de azeites para uma especialização em Direito Econômico quando se deparou com o problema das fraudes no setor. “Isso me indignou a ponto de mudar de carreira”, conta Glenda, fundadora da Lagar H. Em 2014, ela, o pai e os três irmãos plantaram as primeiras oliveiras. Vieram anos de cursos e viagens por países produtores até 2020, quando as primeiras garrafas foram envasadas — e já saíram premiadas. Hoje, o escritório e o centro de distribuição da marca ficam em Alphaville, ponto estratégico para uma empresa que concentra cerca de 80% das vendas no Estado de São Paulo.

A proposta da Lagar H é deixar cada safra falar por si. A marca trabalha com Monovarietal da Safra e Blend da Safra, e as variedades disponíveis mudam conforme o que o campo entrega naquele ano. Entre as cultivadas estão Arbequina, Arbosana, Koroneiki, Coratina, Picual, Frantoio e Manzanilla. Em vez de perseguir um sabor padronizado, Glenda procura preservar essa identidade. “O nosso foco é produzir um azeite extravirgem que traduza o terroir e a safra, sem tentar imitar perfis europeus”.

 

 

CAPOLIVO | Um novo começo aos 74 anos

A Capolivo nasceu quando muita gente já estaria pensando em desacelerar. Aos 74 anos, o avô da família decidiu diversificar as atividades da Fazenda Tarumã da Boa Vista, em Canguçu (RS), até então dedicada principalmente ao reflorestamento de pinus, e plantar oliveiras. A primeira safra, em 2018, rendeu apenas 300 litros. Em vez de colocá-los à venda, a família enviou o azeite a chefs, numa espécie de apresentação do produto brasileiro. A produção comercial começou em 2019 e, na safra deste ano, chegou a 18 mil litros.

A Capolivo optou por trabalhar apenas com monovarietais, para que cada cultivar mostre sua própria personalidade. Arbequina, Koroneiki, Picual, Coratina e, mais recentemente, Frantoio formam o repertório da marca, com aromas que podem remeter a ervas, frutas e vegetais, além de baixa acidez e elevada presença de compostos fenólicos. “Buscamos sempre um azeite equilibrado, vivo e complexo, capaz de transformar uma refeição e proporcionar uma verdadeira experiência sensorial”, afirma Carolina Capoani, sócia da Capolivo.

 

 

MANTIKIR | O olival mais alto do mundo

O Mantikir, da Vinícola Essenza, nasce em condições que dificilmente poderiam ser reproduzidas em outro lugar. Suas azeitonas são cultivadas na Fazenda Tuiuva, em Maria da Fé (MG), em terraços que avançam pela Serra da Mantiqueira entre 1.700 e 1.910 metros de altitude, naquele que a marca apresenta como o olival mais alto do mundo. O proprietário, Herbert Sales, chegou até ali justamente procurando frio: os 1.200 metros de Santo Antônio do Pinhal (SP), onde já produzia vinhos, não eram suficientes para o projeto que imaginava.

O terroir extremo virou a assinatura dos azeites. Frio, grande amplitude térmica e estresse natural das plantas favorecem, segundo Herbert, a concentração dos compostos que dão complexidade ao produto. A cada safra, apenas três ou quatro rótulos chegam ao mercado, selecionados de acordo com o desempenho das variedades naquele ano. Em 2026, são Summit Premium, Coratina, Grappolo e Arbequina; o primeiro é o grande emblema da casa. “Eu não produzo pensando em quantidade. Produzo pensando em complexidade, equilíbrio e persistência”, resume Herbert.

 

 

O desafio agora está à mesa

Se os prêmios mostram que o azeite brasileiro já conquistou os grandes concursos internacionais, fazer o consumidor daqui reconhecer essa qualidade ainda é parte do desafio. Degustações, conteúdo, experiências gastronômicas e olivoturismo são algumas das estratégias usadas para construir repertório em um mercado ainda muito acostumado ao azeite importado de grande escala.

Rafael Marchetti, da Prosperato, vê sinais claros de amadurecimento. “Há alguns anos era comum encontrar consumidores que sequer sabiam que o Brasil produzia azeite. Hoje existe um público crescente que conhece as regiões produtoras, procura a safra, reconhece marcas brasileiras e já provou azeites nacionais de excelente qualidade”. A marca investe em degustações e conteúdo porque, como ele resume, “o prêmio pode fazer a pessoa experimentar pela primeira vez, mas é o conhecimento e a qualidade percebida que fazem ela entender o produto e voltar a comprar”.

Na Estância das Oliveiras, esse trabalho chegou ao olival, aberto ao público por meio do olivoturismo. “A ideia é justamente instrumentalizar o consumidor — não para que ele consuma especificamente o nosso azeite, mas para que saiba o que deve observar para escolher o melhor azeite”, explica Goelzer.

Na Mantikir, Herbert também enxerga a experiência sensorial como uma forma de ampliar o repertório do consumidor sem banalizar o produto. “Fazemos isso para proporcionar uma experiência sensorial capaz de mudar a referência de quem degusta. Depois dessa experiência, muitas vezes a pessoa nem consegue voltar ao que consumia antes”, garante. Mas ele faz um importante recorte sobre esse alcance: “pensamos, sim, em democratizar, tanto que nossos valores diminuíram aproximadamente R$ 100 do ano passado para este ano com o aumento da produção. Mas existe uma diferença entre democratizar e popularizar. E queremos sempre despertar a percepção de que existe um produto que entrega saúde, não apenas uma experiência hedonística e gastronômica”.

COMO ESCOLHER UM BOM AZEITE

Safra e origem

Prefira a safra mais recente e procure informações claras sobre produtor, local de produção e procedência das azeitonas.

Acidez não conta tudo

Acidez baixa é desejável, mas não garante qualidade sozinha. É um parâmetro químico, imperceptível ao paladar, que não revela por si só frescor, aromas ou eventuais defeitos.

Amargo e picante são bons sinais

São atributos positivos do extravirgem e estão associados aos compostos fenólicos. Mas intensidade não é sinônimo de qualidade: uma Arbequina pode ser delicada e excelente; uma Coratina, muito mais intensa.

Frescor é fundamental

Procure aromas que lembrem folhas, ervas, tomate, grama ou frutas frescas. Prefira embalagens escuras e mantenha o azeite longe de luz e calor. Depois de aberto, use: azeite não melhora com o tempo.

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