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Especial Alphaville 53 anos

ALPHAVILLE que só quem mora conhece

Os códigos, lugares e hábitos que fazem parte da vida de quem escolheu Alphaville para morar

Glaucia Arboleya

Glaucia Arboleya

Publicado em 25/09/2026 · atualizado há 5 horas · 6 min de leitura

ALPHAVILLE que só quem mora conhece
O letreiro de Alphaville é um dos principais símbolos do bairro — Foto: Felipe Barros

Há um Alphaville que não aparece nos números do mercado imobiliário, nos edifícios corporativos ou nas estatísticas de população. É o Alphaville percebido por quem vive a região todos os dias e reconhece seus sinais, seus caminhos e suas pequenas particularidades. São referências que atravessaram diferentes fases do bairro e, aos poucos, ganharam significado próprio e ajudam a explicar a identidade de um território que, em 53 anos, deixou de ser apenas um projeto urbanístico para se tornar uma comunidade.

UM SÍMBOLO NA ENTRADA

O Letreiro Alphaville, na Alameda Rio Negro, é provavelmente uma das imagens mais associadas à chegada à região. Mais do que uma identificação, tornou-se um marco visual de Alphaville e aparece em registros desde os primeiros anos de implantação do bairro. Para quem vive ali há décadas, porém, seu significado ultrapassa a função de ponto de referência. O letreiro funciona como uma espécie de fronteira simbólica: depois dele, começa o território conhecido, a rotina, os encontros e a sensação de retorno.

UMA GEOGRAFIA PARTICULAR

Quem circula por Alphaville encontra uma curiosa geografia no próprio endereço. Rio Negro, Araguaia, Tocantins, Madeira, Mamoré, Amazonas e Purus estão entre os nomes que batizam as alamedas e vias da região. A escolha criou, desde os primeiros anos do empreendimento, uma identidade particular para o sistema viário. A Alameda Rio Negro e a Alameda Araguaia, por exemplo, estavam entre as principais vias da implantação original, “as espinhas dorsais” e ajudaram a estruturar a ocupação inicial de Alphaville. O paisagismo também contribuiu para diferenciar os caminhos.

Segundo o paisagista Oscar Bressane, responsável por projetos na região, espécies de árvores foram utilizadas para caracterizar determinadas vias: a Rio Negro, por exemplo, pelas sibipirunas; a Madeira, pelas paineiras; e a Mamoré, pelas palmeiras seafortias. O resultado é quase uma pequena cartografia brasileira dentro de Alphaville.

O ESPORTE COMO PARTE DA VIDA LOCAL

A relação de Alphaville com o esporte também atravessa gerações. Clubes, academias, pistas e espaços abertos fazem parte de uma cultura de convivência que se consolidou paralelamente ao crescimento urbano. Fundado em 1976, o Alphaville Tênis Clube é um dos exemplos mais antigos dessa história. Ao longo de décadas, tornou-se não apenas um espaço esportivo, mas também um ponto de encontro e convivência social.

Fora dos clubes, a prática esportiva ocupa outros espaços da região. A pista de cooper da Alameda Mamoré, os espaços do 18 do Forte e a Via Parque, fechada aos domingos até as 13h, integram uma rede de alternativas para caminhadas, corridas e atividades ao ar livre.

O VERDE QUE PERMANECEU

A imagem de Alphaville costuma estar associada aos condomínios, escritórios e edifícios que definem sua paisagem urbana. Mas existe outra dimensão menos evidente — e igualmente importante — na formação da região: o verde. O Parque Ecológico – Ilha do Tamboré, na Avenida Dib Sauaia Neto, ocupa cerca de 1 milhão de metros quadrados e preserva uma área significativa em meio à urbanização. O espaço reúne áreas para caminhada, corrida e pedalada e mantém trechos de vegetação e ambientes naturais.

Dentro do parque está a Área do Russo, onde permanecem três lagos remanescentes da antiga retificação do rio Tietê. A área abriga diferentes espécies de árvores e animais e funciona como uma espécie de memória ambiental de uma região que passou por profundas transformações.

O INESPERADO PERSONAGEM DA PAISAGEM

Há ainda um personagem que dificilmente aparece nas fotografias institucionais de Alphaville, mas que faz parte do cotidiano de quem vive por aqui: o saruê. Também conhecido como gambá, o marsupial é uma espécie nativa e encontra nas áreas verdes, jardins e quintais da região condições para circular e se alimentar. De hábitos predominantemente noturnos, adapta-se ao ambiente urbano e contribui para o equilíbrio do ecossistema. Sua alimentação inclui frutas e pequenos animais, entre eles ratos, escorpiões e pequenas serpentes. Por isso, o encontro com um saruê pode causar surpresa, mas sua presença também revela algo importante sobre a relação entre a urbanização e as áreas naturais que permanecem no território. Para os moradores, o animal acabou ganhando status de personagem local. Não aparece em folders de empreendimentos nem em apresentações corporativas, mas faz parte da experiência cotidiana de viver em Alphaville.

A IDENTIDADE QUE NÃO ESTÁ NOS NÚMEROS

Em 53 anos, Alphaville mudou de escala, de perfil e de vocação. Vieram empresas, edifícios, restaurantes, escolas, novos empreendimentos e milhares de moradores e trabalhadores. Mas a identidade de um lugar não é construída apenas por aquilo que cresce. Ela também está naquilo que permanece. No letreiro pelo qual gerações passaram ao chegar em casa. Nos nomes das alamedas que já fazem parte do vocabulário de quem vive na região. No clube onde famílias se encontram há décadas. Nas áreas verdes que resistiram à urbanização. E até no saruê que atravessa um jardim durante a noite. São referências aparentemente pequenas, mas que, somadas, ajudam a transformar um território em lugar. E talvez seja justamente aí que esteja um dos aspectos mais particulares de Alphaville: há um Alphaville que os números ajudam a dimensionar — e outro que só quem vive aqui consegue reconhecer.

Glaucia Arboleya

Colunista

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