A estratégia de longa distância de Cícero Barreto
Há 30 anos na Omint e prestes a correr sua 30ª ultramaratona, o executivo defende que alta performance só existe com intencionalidade e cuidado com as equipes
Filho de nordestinos e de origem humilde, Cícero Barreto, o Cião, construiu uma trajetória de 30 anos no Grupo Omint, referência em saúde e seguros de alto padrão. Formado em Análise de Sistemas, com especialização em Marketing pela FGV e MBA pela Universidade de Ohio (EUA), fez da união entre tecnologia, estratégia e conhecimento de mercado a base de sua atuação na companhia, onde hoje ocupa o cargo de diretor comercial e de marketing.
Fora do ambiente corporativo, Cícero encontrou nas ultramaratonas um território que exige a mesma estratégia, disciplina e resistência que marcaram sua carreira. Autor do livro “Correndo na Trilha dos Sonhos”, ele fala à Efe sobre liderança, negócios, esporte e os aprendizados de uma trajetória que une esses dois mundos.
Efe. - Você costuma associar princípios das ultramaratonas à gestão de equipes. Na prática, qual aprendizado do esporte mais transformou sua forma de liderar pessoas?
Cícero - O esporte sempre esteve presente na minha vida, desde a infância, e tudo o que envolve a prática acabou contribuindo para formar quem eu sou hoje. Este ano completo a minha 30ª ultramaratona, na La Misión que acontece em Passa Quatro (MG), agora em agosto. Mas, se eu tivesse que escolher um aprendizado da ultramaratona que mais transformou minha forma de liderar, seria a responsabilidade sobre as próprias escolhas. Em uma ultramaratona, tanto a largada quanto a chegada são o troféu de inúmeras horas de treino, de meses de preparação e, principalmente, das escolhas que você fez ao longo do caminho. Ninguém corre por você. Ninguém pode assumir as suas decisões, fazer as suas escolhas ou conquistar o seu sonho no seu lugar. Sonhos não podem ser delegados. Na liderança, acredito que seja muito parecido. Um líder precisa ter clareza sobre onde quer chegar, mas também precisa estar disposto a sair da zona de conforto para construir esse caminho. E isso começa pela própria responsabilidade: você precisa ser dedicado com o objetivo, com as equipes, para que o resultado seja conquistado.
Ao mesmo tempo, liderar não significa correr sozinho. Uma ultramaratona ensina que você precisa conhecer seus limites, administrar energia, tomar decisões diante do imprevisto e confiar no processo. Na gestão, é a mesma coisa: o líder não faz tudo, mas precisa direcionar e criar condições para que sua equipe chegue cada vez mais longe. Costumo falar que é a paz no caos. Talvez esse seja o maior paralelo que faço entre os dois mundos: liderança, assim como uma ultramaratona, não se constrói no momento da chegada. Ela é construída nas escolhas que fazemos muito antes dela.
Efe. - Depois de 30 anos na mesma empresa, o que foi mais determinante para a sua evolução?
Cícero - Ao olhar para os meus 30 anos de carreira no Grupo Omint, acredito que o que mais determinou a minha trajetória foi a intencionalidade. Eu nunca enxerguei carreira como algo que simplesmente acontece com o passar do tempo. Sempre procurei participar ativamente dos movimentos que poderiam me levar a novos desafios. Desde o início, fui uma pessoa muito disponível para aprender, sempre busquei oportunidades para conversar com meus líderes, entender o que eu poderia fazer melhor, onde precisava evoluir e o que seria necessário para estar preparado para novas oportunidades. Para mim, carreira não é esperar uma oportunidade aparecer: é estar preparado para quando ela surgir.
Sair da zona de conforto também foi uma das grandes molas propulsoras dessa trajetória. Muitas vezes, crescer significa justamente aceitar aquilo que ainda não dominamos, assumir responsabilidades novas e estar disposto a aprender durante o caminho. Mas existe outro aspecto que considero fundamental: crescer na carreira também é aprender a fazer os outros crescerem. É estar disponível para orientar, compartilhar conhecimento, ouvir diferentes perspectivas e caminhar junto com as pessoas.
Efe. - O mercado fala muito sobre alta performance, mas pouco sobre sustentabilidade dessa performance. Como um líder pode formar equipes que entreguem resultados consistentes sem esgotar as pessoas?
Cícero - Acredito que alta performance esteja relacionada a conseguir entregar o seu melhor tendo como base a disciplina, o foco e os olhos no objetivo. No entanto, resultado consistente não nasce da pressão constante, mas sim de uma liderança que sabe caminhar lado a lado para que as metas sejam conquistadas.
Para mim, liderar é estar próximo o suficiente para perceber quando alguém precisa de orientação, quando está pronto para um novo desafio ou quando é necessário reorganizar a rota. Em uma prova longa, você não consegue correr os quilômetros olhando apenas para a linha de chegada: é preciso administrar o ritmo, entender o momento, corrigir a estratégia e seguir avançando. Na liderança vejo da mesma forma.
Por isso procuro criar espaços para conversas frequentes, reconhecimento, qualificação e desenvolvimento. As pessoas precisam saber onde estão, o que podem melhorar e quais oportunidades existem para que continuem evoluindo. E também precisam ter segurança para dizer quando alguma coisa não está funcionando. Uma equipe de alta performance não é aquela que nunca precisa mudar a rota, mas é aquela que consegue perceber a hora de mudar antes de se perder no caminho. E isso passa, necessariamente, pela saúde mental. É um tema que me preocupa e que considero parte da responsabilidade de quem lidera. Não podemos falar em performance de longo prazo sem falar sobre as condições que permitem às pessoas sustentar essa performance com saúde, equilíbrio e propósito. Esse olhar está muito conectado ao ambiente em que estou inserido no Grupo Omint, onde o cuidado com as pessoas e a jornada de cuidado com a saúde fazem parte da nossa própria visão. Para nós, isso não fica restrito ao discurso institucional: é uma verdade presente no dia a dia da companhia. Cuidar de pessoas não é contraponto da alta performance. É uma das condições para que ela seja sustentável.
Efe. - Sua trajetória começou cedo, em uma realidade muito diferente da que vive hoje. Existe algum valor aprendido naquela época que continua inegociável na sua forma de liderar?
Cícero - Existem valores que permanecem, mesmo quando a vida muda muito. No meu caso, a família é uma das minhas maiores referências de retidão, de caráter e de compromisso. É um valor que carrego comigo e que considero inegociável.
Ao longo da minha trajetória, também tive a sorte de encontrar pessoas que foram fundamentais para o meu desenvolvimento humano. Algumas me ensinaram pelo exemplo, outras pelos conselhos, outras simplesmente pela convivência. Esses encontros nos transformam e ajudam a ampliar a nossa forma de enxergar o mundo.
Mas talvez um dos aprendizados mais importantes tenha sido entender que o maior compromisso que uma pessoa pode assumir é com a própria jornada. A vida é nossa responsabilidade. Não podemos delegar aquilo que existe de mais importante: as nossas escolhas, os nossos valores e o caminho que decidimos construir.
Hoje, tenho consciência dos privilégios e das oportunidades que fazem parte da minha realidade, e isso aumenta o meu senso de responsabilidade. Ao mesmo tempo, não esqueço de onde vim, das pessoas que estiveram comigo e de todo o esforço necessário para chegar até aqui. Reconhecer o privilégio não apaga a trajetória. Pelo contrário, nos torna ainda mais responsáveis pelo que fazemos com aquilo que conquistamos. É esse olhar que procuro levar para a liderança: ter consciência de que cada pessoa traz uma história, respeitar essa história e, ao mesmo tempo, lembrar que todos nós temos responsabilidade sobre o futuro.
Efe. - Na sua visão, quais competências comportamentais os novos líderes de hoje mais carecem e que não são ensinadas nos MBAs tradicionais?
Cícero - Acredito que uma das competências mais importantes, e que dificilmente se aprende em um MBA, é a capacidade de manter a paz no caos. O ambiente de negócios é cada vez mais complexo, veloz e imprevisível. O líder não pode ser aquele que amplifica a ansiedade do ambiente, ele precisa ser capaz de trazer clareza e direção justamente quando tudo parece incerto. Isso está muito relacionado a outro conceito que considero fundamental: a antifragilidade. Não basta preparar as pessoas para resistirem às dificuldades. Um líder antifrágil é aquele que consegue transformar pressão, mudança e adversidade em aprendizado e evolução. E isso exige flexibilidade, capacidade de tomar decisões em um cenário complexo, abertura para rever rotas e, principalmente, maturidade emocional. Mas existe um ponto que considero cada vez mais importante: não podemos falar de liderança de alta performance sem falar de saúde. O líder precisa cuidar da própria saúde física e mental e também criar um ambiente em que as pessoas se sintam motivadas a cuidar das delas. É muito difícil pedir equilíbrio, resiliência e disposição para uma equipe quando o próprio líder não pratica isso.
Por isso, acredito que os novos líderes precisam desenvolver algo que nenhum MBA consegue entregar sozinho: autoconhecimento para entender seus limites, consciência para reconhecer os limites dos outros e maturidade para saber que cuidar não é diminuir a exigência, mas é criar condições para que as pessoas possam sustentar seus melhores resultados. E, talvez, a grande competência seja essa: ser capaz de manter a paz no caos sem perder a capacidade de agir.
Efe. - No livro 'Correndo na Trilha dos Sonhos', você aborda a busca por propósitos. Como um líder consegue conectar o propósito pessoal de cada colaborador com os objetivos financeiros e de crescimento da empresa?
Cícero - Acredito que propósito, dentro de uma empresa, precisa estar conectado à realidade. Para mim, existe uma condição fundamental para essa conexão acontecer: os valores do profissional precisam ser compatíveis com os valores da empresa. Quando existe essa convergência, fica muito mais fácil entender que os objetivos de crescimento e os resultados financeiros não são necessariamente opostos aos objetivos individuais. Eles podem fazer parte de uma mesma construção.
Na Omint, essa conexão é especialmente clara para mim porque existe um propósito muito forte de cuidar de pessoas. Isso dá um sentido concreto ao nosso trabalho, independentemente da área em que cada um atua, existe uma contribuição para uma entrega maior. Quando o propósito da empresa encontra os valores de quem trabalha nela, o trabalho deixa de ser apenas uma função e passa a ter significado.
A partir daí, entra uma palavra que considero essencial: responsabilidade. Cada profissional precisa compreender o impacto daquilo que entrega e assumir o compromisso de fazer o seu melhor, com excelência. É um jogo de ganha-ganha. O propósito não elimina a cobrança por resultado, muito pelo contrário: quando existe propósito, a responsabilidade pela entrega precisa ser ainda maior. O papel do líder é justamente criar essa conexão, deixar claro onde a empresa quer chegar, quais valores orientam essa jornada e como cada pessoa pode contribuir para esse resultado. Não significa fazer com que todos tenham o mesmo propósito, mas construir um ambiente em que os propósitos individuais possam coexistir com um objetivo coletivo.
Propósito sem responsabilidade vira intenção. Responsabilidade sem propósito vira obrigação. O que gera resultado sustentável é a combinação dos dois.
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