Pular para o conteúdo
Economia

Recuperação judicial cresce e expõe pressão sobre empresas brasileiras

Juros elevados, crédito restrito e endividamento acumulado estão entre os fatores que pressionam companhias de diferentes setores

Glaucia Arboleya

Glaucia Arboleya

Publicado em 25/09/2026 · atualizado há 1 dia · 4 min de leitura

Recuperação judicial cresce e expõe pressão sobre empresas brasileiras
Em agosto, o Grupo Casas Bahia entrou com pedido de recuperação judicial — Foto: Arthur Nobre/Exame

Casas Bahia, Habib’s, Havanna. Empresas de diferentes segmentos e portes, mas com algo em comum: todas chegaram recentemente ao limite de suas estruturas financeiras e recorreram à recuperação judicial para tentar reorganizar as dívidas e preservar suas operações. Os casos chamam atenção não apenas pelos valores envolvidos, mas por atingirem marcas conhecidas e empresas que, durante anos, fizeram parte do cotidiano dos brasileiros.

Em agosto, o Grupo Casas Bahia entrou com pedido de recuperação judicial para renegociar uma dívida de aproximadamente R$ 17,3 bilhões. Poucos dias depois, foi a vez do Grupo Gennius, controlador das redes Habib’s, Ragazzo e Tendall Grill, que declarou R$ 265,2 milhões em dívidas. Nos dois casos, as companhias apontaram, entre os fatores de pressão, as dificuldades de liquidez.

Outro caso conhecido é da Azul Linhas Aéreas, que fez um pedido de recuperação judicial nos Estados Unidos em 2025 e anunciou a saída do processo em fevereiro deste ano. Os episódios estão longe de ser casos isolados.

Dados da Serasa Experian mostram que 2.466 CNPJs estiveram envolvidos em recuperações judiciais no Brasil em 2025, alta de 13% em relação ao ano anterior e recorde da série histórica. Para Marcos Pelozato, advogado especialista na área de recuperação judicial e reestruturação de empresas, o cenário é resultado de uma combinação de fatores que vem pressionando o caixa das companhias.

“O que estamos vendo não é um problema isolado de algumas empresas. É consequência de uma combinação muito difícil para quem empreende no Brasil: juros elevados por um período prolongado, crédito mais restrito, aumento do custo financeiro, desaceleração da atividade econômica, margens comprimidas e endividamento acumulado nos últimos anos”.

QUANDO VENDER NÃO É SUFICIENTE

O ambiente de crédito mais caro pesa especialmente sobre empresas que acumularam dívidas durante períodos de maior oferta de financiamento. O problema, explica Pelozato, nem sempre está na falta de vendas, mas na incapacidade de o caixa acompanhar o custo da dívida.

“Na prática, muitas empresas cresceram utilizando crédito barato ou relativamente acessível e hoje precisam carregar essa mesma dívida em um ambiente financeiro completamente diferente. O problema não é necessariamente a empresa deixar de vender. Muitas continuam faturando. O problema é que o caixa deixou de suportar o serviço da dívida”.

A pressão é disseminada entre diferentes setores. Em 2025, agropecuária e serviços concentraram, respectivamente, 30,1% e 30% dos CNPJs envolvidos em recuperações judiciais, seguidos por comércio (21,7%) e indústria (18,2%), segundo a Serasa. No varejo, juros altos atingem tanto o custo financeiro das empresas quanto a capacidade de consumo dos clientes.

RECUPERAÇÃO NÃO É SINÔNIMO DE FALÊNCIA

Apesar de muitas vezes ser interpretada como o fim de uma empresa, a recuperação judicial tem justamente o objetivo de preservar negócios que ainda são economicamente viáveis. O mecanismo permite reorganizar dívidas enquanto a companhia continua operando.

“Falência significa liquidação. Recuperação judicial significa tentativa de preservação. O que determina sustentabilidade é margem, geração de caixa, estrutura de capital, nível de endividamento e capacidade de honrar esse endividamento”, resume Pelozato. A Lei 11.101/2005 estabelece como objetivos a superação da crise, a preservação da fonte produtora e dos empregos e a proteção dos interesses dos credores.

Glaucia Arboleya

Colunista

Glaucia Arboleya

Newsletter da efe

Alphaville na sua caixa de entrada

Negócios, network e lifestyle da região — uma seleção da redação, toda semana.