SVALBARD: Nos limites do Ártico
No extremo norte do planeta, a meio caminho entre o fim do continente europeu e o Polo Norte, no meio do Oceano Ártico, encontra-se um remoto grupo de ilhas que parece pertencer a um outro mundo, o Arquipélago de Svalbard
Estive em Svalbard a primeira vez gyearbyen, situada em Spitsbergen, a maior ilha do arquipélago tinha, à época, apenas 900 habitantes, a maioria ligada a mineração de carvão, a principal atividade econômica naqueles tempos. Hoje, cerca de 2.700 pessoas vivem naquela localidade remota, a apenas 1.300 km do Polo Norte. A mineração, hoje em baixa, segue em declínio.
Atualmente, a maioria das pessoas trabalha em pesquisas científicas e no turismo. As pesquisas são centradas principalmente na fauna do Ártico, como ursos polares, baleias, morsas e aves marinhas, na geologia e no inexorável recuo das geleiras, causado pelo aquecimento global.
Svalbard é um arquipélago sob soberania da Noruega, mas a Rússia mantém presença na região. Por muitos anos, as ilhas foram tratadas como terra nullius – terra de ninguém. Ainda hoje, centenas de cidadãos russos vivem em Barentsburg, uma vila sombria e decadente.
A geologia ajuda a explicar a dramática aparência do arquipélago, situado entre as latitudes 74° e 81° Norte. As ilhas são um livro da história geológica do planeta, com paisagens moldadas por antigos processos tectônicos e intensa erosão glacial.
Algumas formações remontam há 1 bilhão de anos. Svalbard foi palco de gigantescas movimentações da crosta terrestre, com um relevo marcado por acidentes geográficos extremos como montanhas, fiordes, canais e geleiras enormes, distribuídos em nove ilhas principais e milhares de ilhotas em uma área de 62 mil km2.
Ainda hoje, aproximadamente 60% de seu território é coberto por gelo, um testemunho da transição entre o fim da Era do Gelo e um ambiente ártico atual.
Em outras eras Svalbard não era um território congelado. Registros fósseis mostram períodos de vegetação abundante, quando dinossauros habitaram as terras e as águas do arquipélago. Camadas sedimentares e fósseis tornaram Svalbard especialmente importante para geólogos e paleontólogos. Glaciações remodelaram o território, escavaram vales, desgastaram montanhas, deixaram enormes depósitos sedimentares e transformaram Svalbard em uma região economicamente disputada, com enormes jazidas de carvão.
A mineração ganhou força no início do século 20 e provocou uma corrida por sua exploração. Antes disso, o arquipélago já havia atraído caçadores, pescadores, comerciantes e exploradores.
O primeiro registro do nome Svalbard aparece em uma fonte islandesa de 1194, embora não seja possível afirmar com certeza que corresponda ao arquipélago atual. Sua primeira descrição comprovada foi feita pelo navegador holandês Willem Barents, que avistou Svalbard em 1596.
Nossa rotina a bordo intercalava períodos de navegação com desembarques para observação da costa. Como estávamos no verão, não havia noite. O clima alternava longos períodos de céu encoberto com curtos momentos de céu limpo.
As regras de visitação são muito rigorosas. Na maioria dos lugares não é permitido o desembarque em terra, para proteger a fauna. Nestes casos, deixávamos o navio em botes Zodiac e percorríamos trajetos próximos à costa, mantendo distância segura de gigantescas geleiras que terminam verticalmente no mar, formando grande paredões. Às vezes, enormes nacos de gelo se desprendiam, caindo estrondosamente no mar e erguendo perigosas vagas. Mesmo à distância segura, a qualquer desprendimento nos afastávamos imediatamente para não sermos colhidos pelas vagas.
Onde era permitido desembarcar, fazíamos caminhadas de 3 ou 4 km de extensão, acompanhados por guias armados. Antes de nós, outros guias desembarcavam e se posicionavam nas colinas, vasculhando a paisagem em busca de ursos polares. Se um urso é avistado, mesmo a enorme distância, a regra é abortar a atividade, retornar imediatamente para os botes e regressar ao navio.
Smeerenburg foi um antigo assentamento em Amsterdamøya, ou Ilha de Amsterdam, ocupada por holandeses e dinamarqueses que lá instalaram, no início do século 17 uma estação baleeira.
Nos séculos seguintes, o interesse econômico prevaleceu. A caça às baleias foi uma das principais atividades no século 17, movida pela abundância de cetáceos nas águas do Ártico. Estas expedições também mapearam o arquipélago, produzindo conhecimento posteriormente utilizado por cientistas e navegadores.
Smeerenburg é um famoso ponto de reunião de morsas, que chegam a atingir cerca de 1,7 mil kg. Pudemos nos aproximar a 30 metros de um grande bando.
O urso-polar é o símbolo de Svalbard e depende do ambiente marinho congelado para caçar, especialmente focas.
Raposas-do-Ártico e renas de Svalbard também fazem parte da fauna terrestre. No mar, focas, morsas e diversas espécies de baleias. Milhões de aves vivem nas falésias e áreas costeiras.
As belas falésias rochosas de Alkefjellet são a morada de centenas de milhares de Guillemots, pequenas aves marinhas que nidificam nos penedos diante de um mar de azul incomum.
Em Bråsvellbreen, na ilha de Nordaustlandet, um extenso paredão de gelo azulado com cerca de 17 km de extensão exibe uma insólita cachoeira que despenca no mar. Ao redor, pequenos icebergs em muitos tons de azul e cinza desfilam ao sabor das correntes.
A história de Svalbard está intimamente ligada à exploração polar. Durante o século 19, o arquipélago recebeu expedições científicas da Noruega, Suécia, Rússia, França, Alemanha, Áustria e Reino Unido. Geólogos, cartógrafos, biólogos, oceanógrafos e glaciologistas percorriam as ilhas para estudar um território quase desconhecido. No século 20, a região serviu de ponto de apoio para expedições aéreas e marítimas que tentavam alcançar o Polo Norte.
Em Ny-Ålesund foram mantidas bases para exploradores do calibre de Roald Amundsen. O sonho de conquistar o extremo norte transformou o pequeno arquipélago em um laboratório de técnicas de exploração polar e trampolim para o sonhado Polo Norte.
A fragilidade ambiental tornou o arquipélago um importante foco de conservação. Grande parte de Svalbard está protegida por parques nacionais e reservas. A presença humana é cada vez mais submetida a regras para evitar impactos ambientais. O acelerado aquecimento do Ártico modifica as geleiras e transforma os ecossistemas. Para os cientistas, as mudanças nas ilhas são como um sinal antecipado do que pode acontecer em outras regiões do planeta. A mesma paisagem que durante séculos atraiu caçadores, mineradores e exploradores, agora atrai pesquisadores preocupados em compreender o futuro do clima. Sua rica história reúne eras geológicas, migrações humanas, caça às baleias, mineração, exploração científica, disputas de soberania e confrontos geopolíticos.
No extremo norte, perto de onde o mapa do mundo termina, Svalbard permanece como uma fronteira. Assim foi para navegadores, caçadores e exploradores do passado e, hoje, segue como uma fronteira científica, onde a humanidade observa, em escala acelerada, a transformação de um mundo moldado durante milhões de anos pelo gelo, pela geologia e pelo clima.
Colunista
Glaucia ArboleyaNewsletter da efe
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