MONIQUE EVELLE: “A liberdade de escolher é uma das maiores formas de poder”
Empreendedora, investidora e integrante do Shark Tank Brasil, uma das mulheres mais poderosas do Brasil (Revista Forbes) fala sobre negócios e liberdade
Há trajetórias que podem ser contadas a partir dos cargos, dos prêmios e das posições conquistadas. A de Monique Evelle, porém, teve início muito antes deles. Começa em Salvador, em uma infância marcada pelo contraste entre mundos, pela percepção de que nem todos partem do mesmo lugar e pela insistência dos pais em ampliar o horizonte da filha por meio da educação, da cultura e do acesso à cidade.
Monique cresceu aprendendo a circular. Estudou em escola particular até o 9o ano, foi bolsista de inglês e frequentou diferentes espaços da cidade. Ao mesmo tempo, transitava por bairros de Salvador cujas realidades econômicas eram muito diferentes daquela em que cresceu.
Era uma experiência aparentemente cotidiana, mas que ajudou a construir uma compreensão que mais tarde estaria no centro de sua atuação profissional: acesso também determina possibilidades “Essas vivências em lugares muito diferentes me fizeram perceber desde cedo que existiam outras realidades e que as pessoas não começavam do mesmo lugar.”
A percepção, que veio antes da teoria, se transformaria em estratégia profissional. Monique já havia experimentado, na prática, a diferença entre nascer em determinado lugar e ter acesso a outros territórios, referências e oportunidades. “Antes mesmo de estudar desigualdade ou transformar esses temas em parte do meu trabalho, eu já entendia, pela experiência, que acesso à educação, à cultura e à cidade também determina as possibilidades que uma pessoa pode ter.”
UMA TRAJETÓRIA ENTRE COMUNICAÇÃO, NEGÓCIOS E ESTRATÉGIA
Em 2026, Monique Evelle entrou para a lista da Forbes Brasil que reúne as mulheres mais poderosas e influentes do país, reconhecimento que consolida sua posição como uma das principais vozes da nova economia e da estratégia de negócios.
Monique construiu uma trajetória marcada pela articulação entre comunicação, empreendedorismo e desenvolvimento de lideranças. É reconhecida por sua atuação estratégica no posicionamento de executivos, figuras públicas e empreendedores, combinando visão analítica, leitura de cenário e construção de autoridade.
Fundadora da Inventivos, plataforma que integra educação, tecnologia e investimento, lidera mentorias e programas voltados à criação de estratégias e novos modelos de negócio alinhados a marcas pessoais e institucionais. Seu trabalho conecta inovação, mercado e impacto econômico.
A experiência na comunicação também foi determinante para consolidar seu perfil público. Monique foi repórter do Profissão Repórter, da TV Globo, e participou como jurada e mentora do reality Self Made Brasil.
Aos 28 anos, tornou-se a Shark mais jovem da história do Shark Tank América Latina. Atualmente, integra o Shark Tank Brasil: Versão Creators e atua como mentora no programa Elas Comandam, da Rede Bahia, apoiando negócios liderados por mulheres.
Sua atuação é sustentada por uma formação acadêmica voltada à estratégia e à inovação. Possui MBA em Gestão e Inovação Estratégica pela Universidade Federal de São Carlos, formação executiva em Marketing pela Ohio University, nos Estados Unidos, e cursa mestrado em Branding na Elisava Barcelona School of Design and Engineering, na Espanha.
Monique acumula reconhecimentos nacionais e internacionais. Foi eleita uma das 100 empreendedoras do ano pela Bloomberg Línea e figurou por dois anos consecutivos entre as 500 lideranças mais influentes da América Latina. Integra ainda o grupo global de líderes reconhecidos pela Most Influential People of African Descent (MIPAD), iniciativa ligada à ONU, na categoria Negócios e Empreendedorismo. Também foi destacada entre as profissionais mais criativas do país por publicações como Wired e Women to Watch.
Autora do livro Empreendedorismo Feminino: Olhar estratégico sem romantismo, Monique defende uma abordagem pragmática sobre liderança, crescimento e sustentabilidade nos negócios.
Mas, por trás dos títulos, existe uma trajetória construída também a partir da disposição para aprender, circular e se colocar em ambientes que nem sempre pareciam destinados a ela. Desde 2016, Monique passou a fazer residências e imersões em diferentes lugares.
Atualmente, na Ásia. “Independentemente do resultado financeiro imediato, eu tomei a decisão de continuar aprendendo, circulando e me colocando em contato com outras realidades para continuar sendo relevante, primeiro para mim mesma.” O investimento em repertório acabaria se convertendo também em capital profissional. Monique percebeu que muitas das pessoas responsáveis por decisões sobre o futuro do Brasil não conheciam a realidade de uma parcela enorme da população. A constatação provocou uma mudança importante em sua maneira
de enxergar influência. Não bastava ter boas ideias. Não bastava criar projetos. Era necessário estar onde as deci-
sões aconteciam. “Acho que essa foi uma grande virada para mim: entender que influência não é só ser ouvida. É ter capacidade de participar das decisões, direcionar recursos, apoiar pessoas e ajudar a definir o que ganha espaço.”
NEGÓCIOS QUE VÃO ALÉM DA NARRATIVA
A experiência acumulada em comunicação e estratégia também influencia amaneira como Monique analisa empresas e empreendedores. No momento de investir, não se deixa levar apenas por apresentações sofisticadas ou pela capacidade de um fundador de construir uma boa narrativa. “Eu olho muito para a combinação entre proble-
ma, mercado e pessoa.” Para ela, é preciso entender profundamente o problema que está sendo enfrentado, saber se existe um mercado disposto a pagar pela solução e reconhecer a capacidade de quem está à frente do negócio. “O que me faz perder o interesse rapidamente é quando percebo que existe mais preocupação em parecer uma grande empresa do que em construir uma empresa de verdade. Negócio não se sustenta só em apresentação bonita, buzz ou narrativa.”
No Shark Tank, essa visão ganhou outra dimensão. Investir significa decidir onde colocar dinheiro — mas, para Monique, dinheiro nunca representa apenas dinheiro. “Dinheiro nunca é apenas dinheiro. Ele representa tempo, acesso, possibilidade de crescimento e, muitas vezes, a oportunidade de uma pessoa testar uma ideia que poderia nunca sair do papel. Também fiquei ainda mais consciente de que risco não é igual para todo mundo.”
MULHERES, AMBIÇÃO E PODER
A discussão sobre empreendedorismo inevitavelmente leva Monique ao papel das mulheres no mercado. Ela rejeita a ideia de que negócios liderados por mulheres devam ser tratados como um nicho. Para Monique, estamos falando de uma parcela expressiva da economia, do consumo e da criação de novos negócios.
Mas existe uma questão ainda mais profunda: a forma como a ambição feminina é recebida. “Também existe uma subestimação muito grande da ambição das mulheres.” Falar de crescimento, dinheiro e poder ainda produz reações diferentes quando a voz é feminina. E, para Monique, a mudança dessa lógica não é apenas uma questão de diversidade. “Acho que o mercado ainda está aprendendo que apoiar mulheres empreendedoras não é caridade ou pauta de diversidade. É inteligência de negócio.”
Quando a conversa avança para mulheres negras nos ambientes de poder, a resposta é direta. “Sim. Acho que seria ingenuidade dizer que não.” Monique reconhece uma cobrança maior e uma tolerância menor ao erro. Muitas vezes, uma mulher negra não é avaliada apenas pelo que faz, mas também pelo que representa para quem a observa. É justamente por isso que ela questiona a exigência de excelência permanente. “Mulheres negras não deveriam precisar ser extraordinárias o tempo inteiro para serem consideradas competentes. Competência deveria ser suficiente.”
A própria trajetória exigiu que ela desaprendesse algumas regras. Entre elas, a ideia de que era preciso estar completamente pronta antes de ocupar determinado espaço. “Precisei desaprender a ideia de que precisava estar completamente pronta antes de ocupar qualquer espaço.”
A experiência mostrou que ninguém está pronto o tempo inteiro e que parte do aprendizado acontece justamente depois que se entra pela porta. Também foi necessário aprender a não carregar sozinha o peso das próprias decisões. Monique criou um conselho consultivo pessoal, formado por pessoas em quem confia. A próxima fronteira: escala. Se já conquistou reconhecimento e espaço, o que ainda desafia Monique profissionalmente? A resposta vem em duas palavras: “Escala. Sempre.” Fazer uma ideia funcionar em pequena proporção é diferente de criar uma estrutura capaz de crescer, gerar impacto e continuar funcionando sem depender exclusivamente de uma pessoa.
A MULHER POR TRÁS DA EXECUTIVA
Apesar da agenda e da exposição, existe uma Monique que não está pensando em negócios o tempo inteiro. Ela gosta de viajar, conhecer lugares, conversar, observar e estar perto das pessoas que ama. Valoriza momentos em que não precisa transformar tudo em produtividade. “Eu gosto muito de ter momentos em que não preciso transfor-
mar tudo em produtividade.”
O mesmo vale para um dia sem decisões profissionais. Dormir mais tarde, comer devagar, conversar, caminhar e assistir a alguma coisa sem olhar o celular o tempo inteiro. Para alguém acostumada a decidir, parar também pode ser uma forma de exercício.
O LUXO DE TER PAZ
A maturidade profissional parece ter produzido uma mudança importante na maneira como Monique enxerga sucesso. Se dinheiro e reconhecimento deixassem de ser métricas, a resposta seria liberdade. “Liberdade para escolher onde estar, com quem trabalhar, no que acreditar e como usar o próprio tempo. “Para mim, sucesso também tem muito a ver com olhar para a vida que você construiu e reconhecer que ela faz sentido para você, e não apenas que parece bem-sucedida para quem está olhando de fora.”
Talvez por isso, hoje, conquistar novos espaços já não seja necessariamente a principal ambição. “Hoje, me interessa muito mais poder escolher.” Escolher não significa abandonar a disputa por espaços de poder. Pelo contrário. Monique entende que ainda existem lugares em que determinadas presenças são necessárias para mudar decisões e estruturas.
Mas ocupar um espaço apenas porque ele parece importante deixou de ser suficiente. “Tenho me perguntado cada vez mais: esse lugar conversa com o que eu quero construir? Eu posso fazer alguma diferença aqui? E esse espaço também faz sentido para a vida que eu quero ter?” E então vem a frase que talvez melhor resuma a fase atual de sua trajetória: “A liberdade de escolher é uma das maiores formas de poder.”
O QUE PERMANECE
Monique também preserva aquilo que existe fora dos cargos e dos projetos. Suas relações. A capacidade de mudar de ideia. A curiosidade. “Eu faço questão de continuar perto de pessoas que me conhecem fora dos cargos, dos projetos e da imagem pública.Tentando lembrar que excelência não é perfeição.”
MAIS POSSIBILIDADES DO QUE ENCONTROU
Quando fala sobre legado, ela não começa pelas empresas, pelos cargos ou pelos prêmios. Começa pelas pessoas.“Eu gostaria de deixar mais possibilidades do que encontrei.” É talvez a frase que melhor fecha o arco de sua história. “Se, através do meu trabalho, mais pessoas puderem acessar espaços, informações, recursos e oportunidades que antes pareciam distantes, acho que já estarei muito feliz.” É uma ideia de legado que não depende do futuro distante. Ele acontece agora, nas pessoas que Monique ajuda a colocar em movimento.
Para quem está começando no mundo dos negócios, o conselho segue a mesma lógica de pragmatismo que atravessa sua carreira: “Comece antes de se sentir completamente pronto.” Mas começar não significa romantizar a exaustão ou fingir que todas as respostas já existem. Significa observar, testar, ouvir, errar e ajustar.
Colunista
Glaucia ArboleyaNewsletter da efe
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