“Andar com Fé” canta a vida e a obra de Gilberto Gil no Teatro Santander
Primeira biografia musical dedicada ao artista atravessa infância, Tropicália, exílio e consagração; Gui Ventura conta à Efe como foi o mergulho para viver Gil no palco
Por Aliz Lambiazzi
“Só dizia verdades.” Foi assim que Gilberto Gil resumiu Gil – Andar com Fé, primeira biografia musical dedicada à sua vida e obra, em cartaz no Teatro Santander, em São Paulo. Aos 84 anos e com mais de seis décadas de carreira, o artista agora vê sua própria história transformada em teatro.
Gil assistiu à montagem na apresentação para convidados, em 24 de agosto. Ao fim, subiu ao palco para celebrar com o elenco. “Vai ficar registrado na história esse momento, esse trabalho de vocês. Gostei muito. Acho que vocês também gostaram”, disse, dirigindo-se aos envolvidos na produção e à plateia.
Com texto de Newton Moreno e direção de Miguel Falabella, o espetáculo estreou em 20 de agosto e segue até 29 de novembro. Em vez de simplesmente organizar os acontecimentos em ordem cronológica, a dramaturgia parte do exílio em Londres para percorrer lembranças e diferentes tempos da vida de Gil.
É nesse movimento que surgem a infância no sertão de Ituaçu, na Bahia, a efervescência cultural de Salvador, a Tropicália, a prisão durante a ditadura militar, o show Barra 69, que antecedeu a partida forçada do país, o retorno ao Brasil e a consagração.
A escolha permite também contar uma história que ultrapassa o próprio homenageado. “Esse espetáculo foi pensado como uma homenagem geracional, porque eu acho que essa geração na qual Gil, Caetano e outros personagens da peça estão inseridos é uma geração que efetivamente deixou um legado muito forte”, declarou Falabella.
Quem conduz esse percurso é Tempo-Rei, personagem maduro e quase mítico interpretado por Guga Barbosa. Ele funciona como uma espécie de guia e consciência, aproximando o Gil jovem daquele que ainda virá e costurando os diferentes momentos da narrativa.
Ao redor dele aparecem personagens que atravessaram a vida pessoal e artística de Gil. Caetano Veloso, Gal Costa, Maria Bethânia, Luiz Gonzaga, João Gilberto, Chico Buarque, Rita Lee, Os Mutantes, Sandra Gadelha e Flora Gil estão entre os nomes representados em cena. A família também ganha espaço, da infância à relação com filhos, netos e bisneta.
A música, naturalmente, não funciona apenas como trilha sonora. Canções como “Eu Vim da Bahia”, “Andar com Fé”, “Aquele Abraço”, “Domingo no Parque”, “London, London”, “Tempo-Rei”, “Se Eu Quiser Falar com Deus”, “Drão”, “Vamos Fugir”, “Palco”, “Realce” e “Toda Menina Baiana” ajudam a mover a história e a transformar em cena episódios de descoberta, resistência, saudade, amor e exílio.
Como vestir-se de Gil
No centro dessa travessia está Gui Ventura, escolhido entre mais de 800 candidatos para interpretar Gilberto Gil. Mineiro de Santa Luzia, o ator, cantor, compositor e violonista já tinha uma relação profunda com a obra do artista muito antes de surgir a possibilidade de vivê-lo no teatro.
Gil foi uma influência especialmente importante em seu primeiro álbum, Dois Lados, de 2017, e Gui já havia lido sua biografia e acompanhado inúmeras entrevistas. Entre os discos preferidos está Luminoso, cuja combinação de voz, violão e canções “nuas e cruas”, como define, dialoga com sua própria experiência como compositor e instrumentista.
A familiaridade, entretanto, trouxe um desafio: como interpretar uma figura cuja voz, gestos, maneira de falar e presença são tão reconhecíveis? “O meu primeiro cuidado foi esse: como me vestir de Gilberto Gil sem fazer algo caricato. Esse foi o primeiro receio que me ocorreu”, conta Gui à Efe.
A resposta começou menos pela aparência e mais pelo ouvido. Ele pesquisou a cadência da fala, os tempos de raciocínio, leituras, referências e a maneira como Gil organiza o pensamento. Só depois vieram os movimentos externos, da respiração e posição das pernas aos gestos das mãos.
“Fui muito para o ritmo, por exemplo. Esse foi o primeiro ponto de partida: a musicalidade. Porque Gilberto Gil é musical na obra, mas também é musical na vida”, explica o ator, que buscou entender “o ritmo da fala, a musicalidade da fala, a melodia, os tempos de raciocínio” para chegar à construção lógica e sensível do personagem.
Documentários, apresentações, fotografias, entrevistas e arquivos raros entraram na pesquisa. Gui chegou até a um registro de 1962, anterior à projeção nacional de Gil, e procurou materiais produzidos durante o período em Londres. A preparação continuou nos ensaios, com a preparadora de elenco Érica Montanheiro e sob os olhares de Falabella e da diretora associada Bárbara Guerra.
Foi justamente o Gil jovem, mais distante dos registros atuais, que exigiu maior dose de criação.
“A gente tem muito acesso ao Gilberto Gil equilibrado, sereno, intelectual. E eu precisava tentar compreender esse Gilberto Gil mais anárquico, mais abraçado à ideia de liberdade, mais propositivo a romper aquilo que já estava estabelecido. Há pouco material desse Gilberto Gil no dia a dia para além da obra disponível”, afirma Gui.
Para preencher essas lacunas, o ator juntou fragmentos de fotografias e documentos ao trabalho de imaginação permitido pelo teatro. O resultado da pesquisa também produziu uma descoberta menos visível: quanto mais se aproximava do ídolo, mais encontrava o homem.
“Acredito também que houve a humanização dessa divindade. A gente coloca o ídolo como uma divindade, mas muitas vezes isso acaba desumanizando. Então, foi bom entender essa construção, essa condução de vida, em que a ideia de luz e sombra está muito presente”, reflete.
Mas uma fala de Gui, em particular, mostrou o tamanho de sua gratidão por esse papel: “o luxo para um artista é quando ele passa a poder escolher pelo gosto e não pela necessidade. Para mim, é muito bom hoje poder fazer um trabalho em que acredito, que tenho orgulho de fazer e que conta a história de um artista por quem, de fato, tenho grande admiração”.
Gil por muitas vozes
Gui é o centro de um elenco de 34 artistas que se desdobra em dezenas de personagens ao longo das décadas. Além dele e de Guga Barbosa, Henrique Zamith interpreta Caetano Veloso e Bel Lima vive Flora Gil, enquanto outros integrantes assumem diferentes figuras da história.
A encenação acompanha essa multiplicidade. A direção musical é de Thiago Gimenes, que também divide os arranjos e a orquestração com Tiago Saul e Ivan de Andrade. As coreografias são assinadas por Leilane Teles e Tiago Dias, a cenografia por Natália Lana e os figurinos por Marco Pacheco e Jemima Tuany.
É uma estrutura pensada para fazer épocas, lugares e memórias se encontrarem no mesmo palco. Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo e Londres aparecem não como capítulos isolados, mas como partes de uma trajetória em que vida pessoal, música e transformações do país frequentemente se confundem.
O próprio encontro entre Gil e quem o interpreta também carrega algo dessa passagem de tempo. Gui só conheceu o músico depois de já ter sido escolhido nas audições. Quando se encontraram, antes do início dos ensaios, o ator já carregava a dimensão da responsabilidade que teria pela frente.
Meses depois, na sessão para convidados, foi diferente. Com o trabalho construído, Gui conta que a ansiedade havia dado lugar à tranquilidade de quem deu seu melhor.
“Eu estava muito com uma energia de celebração. Não estava ansioso no sentido de querer agradar ou não, porque já tinha a sensação de que tínhamos feito tudo o que podíamos até então, com muita seriedade, muito amor e muita dedicação”, lembra. A tranquilidade quase escapou na última música, quando teve vontade de abandonar por um instante o personagem para ovacionar Gil na plateia, mas se conteve e levou a cena até o fim.
Gil – Andar com Fé integra ainda a programação comemorativa dos dez anos do Teatro Santander. “Na programação que celebra os 10 anos do Teatro Santander, o espetáculo GIL – Andar com Fé ocupa um lugar especial ao homenagear a trajetória e a obra de Gilberto Gil, reafirmando nosso compromisso com grandes histórias, artistas e produções que constroem a cultura brasileira”, afirma Bibiana Berg, Head Sênior de Cultura, Experiências e Impacto Social do Santander.
A temporada segue até 29 de novembro, com sessões às quintas e sextas, às 20h; aos sábados, às 16h e 20h; e aos domingos, às 15h e 19h.
Ao assistir à própria trajetória transformada em música, personagens e memória, Gil terminou fazendo um convite que amplia o sentido da homenagem para além de sua biografia.
“Estão todos convidados. Venham ver o musical e venham se ver também nesse musical, porque as canções todas foram feitas pra vocês e a minha vida tem sido vivida pra vocês todos também”, expressou o artista em vídeo publicado no perfil oficial de Andar com Fé.
Colunista
Glaucia ArboleyaNewsletter da efe
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