Um MAM ainda mais integrado ao verde do Ibirapuera
Depois de pouco mais de dois anos longe de sua sede, museu retorna ao Parque Ibirapuera com arquitetura e infraestrutura modernizadas e novas formas de receber a arte e o público
Por Aliz Lambiazzi
Quem conhecia o Museu de Arte Moderna de São Paulo, o MAM, antes de agosto de 2024 provavelmente o reconhecerá ao voltar ao Parque Ibirapuera. E essa familiaridade é intencional. A reforma que marcou o retorno do museu à sua sede, em 12 de setembro, foi conduzida com uma premissa clara: atualizar profundamente o edifício sem apagar sua identidade.
O projeto ficou a cargo do Metrópole_arq, escritório paulistano com mais de duas décadas de atuação e experiência especialmente ligada à preservação do patrimônio cultural, museus e expografia. Entre seus trabalhos estão o projeto expográfico do Museu do Ipiranga e projetos de conservação de importantes exemplares da arquitetura moderna, como o MASP (Museu de Arte de São Paulo).
No MAM, os arquitetos Anna Helena Villela e Silvio Oksman encontraram justamente o desafio de conciliar preservação e atualização. A intervenção aproveitou o período em que o museu precisou deixar o edifício, em razão das obras na Marquise do Ibirapuera, para rever circulação, acessibilidade, infraestrutura e espaços expositivos.
“Partimos do existente e de uma proposta de menor intervenção possível. Essa decisão levou à manutenção das principais características arquitetônicas do Museu, mas com atualização de toda a infraestrutura”, explicam os arquitetos.
A aparente simplicidade dessa escolha escondia um projeto complexo. Entre os principais problemas identificados estavam os fluxos de público e de serviço e a necessidade de retirar equipamentos instalados sobre a Marquise, que também passava por restauração. Segundo o escritório, organizar esses sistemas e garantir ao museu as condições necessárias para receber exposições foi um dos maiores desafios da obra.
Algumas das mudanças serão facilmente percebidas por quem frequentava o MAM antes do fechamento. Uma das principais está no auditório, cuja reformulação ajudou também a transformar a área de acolhimento.
“O redesenho do auditório permitiu remover um desnível que ficava na área do acolhimento e comprometia demais esse espaço. Para acessibilidade do auditório, invertemos o acesso – agora feito pela cota inferior – que permitiu a remoção da escadaria. Além de atender à acessibilidade universal, o acolhimento ficou com uma área mais adequada”, detalham Anna Helena e Silvio.
A orientação pelos espaços também mudou. O novo sistema de sinalização, criado pelo Estúdio CLDT, de Celso Longo e Daniel Trench, reorganiza a comunicação interna e busca tornar mais fácil a circulação dos visitantes.
O que aparece e o que não aparece
Nem todas as mudanças, porém, foram feitas para serem vistas. Boa parte do investimento está escondida atrás de paredes, forros e sistemas técnicos.
“A reforma priorizou a adequação de infraestruturas essenciais para salvaguardar o acervo e atender a padrões internacionais de conservação. A climatização de todos os espaços com um novo ar-condicionado foi algo importante. Troca de sistemas e maior controle de umidade/temperatura para preservação das obras. Além disso, houve a modernização dos sistemas elétricos, redes de detecção, sprinklers e novo projeto de acessibilidade universal”, explica Cauê Alves, Curador-chefe do MAM São Paulo.
Para o curador-chefe, essa atualização era fundamental para que o edifício pudesse responder às exigências atuais de um museu sem perder sua essência.
“A grande reforma do Museu de Arte Moderna de São Paulo requalifica a instituição como um espaço de convivência integrado ao Parque Ibirapuera, modernizando infraestruturas críticas sem perder a essência do prédio”, afirma.
Nas salas expositivas, uma das intervenções mais importantes também tende a passar despercebida pelo visitante. Um novo forro técnico com trilhos flexíveis amplia as possibilidades dos projetos expográficos, dando às exposições maior liberdade de montagem.
Para os arquitetos, essa infraestrutura invisível resume boa parte da complexidade da reforma. “Sem dúvida o acesso e as salas expositivas, o auditório serão percebidos pelo visitante. A grande questão desse projeto foi a instalação de infraestrutura. Que de fato não aparece, mas sem a qual o museu não é viável”, afirmam.
Orçada em cerca de R$ 20 milhões, a requalificação do MAM foi financiada com recursos públicos e privados. A Prefeitura de São Paulo repassou R$ 10 milhões, por meio da Secretaria Municipal de Cultura, enquanto o restante foi captado pelo museu junto à iniciativa privada e à sociedade civil.
Um museu voltado para fora
Talvez a transformação mais simbólica esteja justamente na relação do MAM com aquilo que o cerca.
O edifício integra o conjunto arquitetônico original do Parque Ibirapuera, concebido por Oscar Niemeyer, e foi adaptado em 1982 por Lina Bo Bardi para abrigar o museu. Na reforma atual, transparência e fluidez foram tratadas como elementos a preservar, mantendo a relação visual com a Marquise e a vegetação do parque. As intervenções estruturais passaram pela aprovação do Condephaat, Conpresp e Iphan.
A preservação dessa identidade também era uma preocupação do museu. “A reforma preservou rigorosamente a transparência e a fluidez. As paredes de vidro e divisórias móveis mantêm a visibilidade para a marquise e a vegetação do parque, princípio central do projeto de Lina”, afirma Cauê.
Uma das decisões do Metrópole_arq ajuda a materializar essa aproximação: a bilheteria foi levada para fora do edifício, sob a própria Marquise. “Dessa forma, o visitante passa pela bilheteria pela marquise. Também fizemos um esforço de limpar a fachada sul, que abre para o estacionamento”, explica Silvio.
A mudança vai além da circulação. Loja, restaurante e áreas de convivência foram reorganizados para receber não apenas quem comprou ingresso para uma exposição, mas também quem está simplesmente atravessando o parque. O MAM Educativo ganhou uma estrutura mais versátil para oficinas, ateliês e atividades de mediação, enquanto a biblioteca foi totalmente reformulada e passou a contar com uma área maior para exposições.
A intenção é borrar, na medida do possível, a fronteira entre estar no Ibirapuera e entrar em um museu.
Essa ideia aparece também nos planos do Educativo, que passa a buscar públicos que normalmente não frequentam instituições culturais. Entre eles estão os próprios usuários do parque, inclusive praticantes de esportes. Atividades ao ar livre, experiências digitais, performances e ações na Marquise e no Jardim de Esculturas passam a fazer parte dessa aproximação.
A arte ocupa os novos espaços
Se a reforma preparou o edifício para uma nova etapa, coube ao “39º Panorama da Arte Brasileira: Depois que tudo foi dito” inaugurar as salas renovadas.
Com curadoria de Diane Lima, a exposição reúne 33 artistas de 11 Estados brasileiros e permanece em cartaz até 24 de janeiro de 2027. A mostra propõe refletir sobre aquilo que permanece, se transforma ou começa a surgir quando determinados acontecimentos parecem já ter chegado ao fim.
Criado como uma forma de acompanhar a produção artística realizada no país, o Panorama é uma das iniciativas mais tradicionais do MAM e assume peso especial nesse retorno: ao mesmo tempo em que reabre fisicamente o museu, coloca novamente a produção contemporânea brasileira no centro de sua programação.
Mas o novo capítulo não se limita à exposição inaugural. Segundo Cauê Alves, a experiência do período em que o MAM esteve fora da sede também deverá permanecer.
“O MAM aprendeu a fazer parcerias com diversas instituições, o que chamamos de MAM em Movimento, e isso vai continuar. Haverá mostras do acervo próprio, além de diálogos entre o moderno e o contemporâneo, com mostras que enfatizam a arte brasileira, mas em relação ao que se faz em outras partes do mundo, utilizando expografias mais flexíveis e com um novo projeto luminotécnico”, diz.
A reabertura ainda trouxe uma nova etapa do MAM Educativo, agora organizado em quatro programas permanentes: Programa de Visitação, MAM Escolas, MAM na Marquise e Ateliê Aberto, além de atividades como oficinas, cursos, contações de histórias e ações voltadas à inclusão. Entre as novidades está o Ateliê Aberto: Práticas Inclusivas em Arte Contemporânea, realizado em colaboração com a University of Leeds e destinado a pessoas com deficiência intelectual e autismo.
O Clube de Colecionadores, que completa 40 anos em 2026, também ganhou uma nova edição, com obras de León Ferrari, Mayara Ferrão e Rodrigo Cass, além de um trabalho inédito de Carmela Gross criado para celebrar o aniversário do programa.
Até a gastronomia entrou na renovação. O restaurante Petí, comandado pelo chef Victor Dimitrow e pela restauratrice Bárbara Camargo, passou a ocupar o museu com cardápio sazonal e pratos que podem dialogar com as exposições em cartaz. O restaurante tem o selo Bib Gourmand, do Guia Michelin, concedido a estabelecimentos que oferecem boa gastronomia com ótima relação custo-benefício.
Depois de pouco mais de dois anos longe de casa, o MAM voltou sem a intenção de parecer outro museu. O movimento foi mais sutil — e, em muitos aspectos, mais profundo. Preservou-se aquilo que fazia parte de sua identidade arquitetônica enquanto se redesenhavam os caminhos, a infraestrutura e as formas de ocupação.
O resultado é um museu que continua reconhecível, mas procura estar mais preparado para a arte que ainda virá. E mais aberto a quem passa por suas portas, ou simplesmente pela Marquise.
Pronto para receber
O MAM reabriu ao público no dia 12 de setembro de 2026 e funciona de terça a domingo, das 10h às 18h, com última entrada às 17h30. Às segundas-feiras, permanece fechado.
Os ingressos custam R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia-entrada). A visita é gratuita aos domingos. Crianças menores de 10 anos e pessoas com deficiência, com um acompanhante, têm gratuidade.
Com a retomada das atividades na sede, o museu volta a oferecer também uma programação mensal gratuita, divulgada em sua agenda on-line. Ingressos, programação e demais informações estão disponíveis no site www.mam.org.br.
MAM: quase oito décadas de arte
Fundado em 1948 por iniciativa do empresário e mecenas Ciccillo Matarazzo, o Museu de Arte Moderna de São Paulo foi uma das primeiras instituições do país dedicadas à arte moderna. Em 1969, passou a ocupar sua atual sede sob a Marquise do Parque Ibirapuera.
No mesmo ano, o museu criou o Panorama da Arte Brasileira, mostra que se tornaria uma de suas principais iniciativas voltadas à produção contemporânea. Em 1982, a sede passou por uma importante adaptação de Lina Bo Bardi, que reforçou a integração do espaço com a Marquise e o parque.
Ao longo das décadas, o MAM ampliou sua atuação para educação, pesquisa e formação, com iniciativas como o MAM Educativo e o Clube de Colecionadores. Hoje, mantém um acervo de mais de 5 mil obras, em sua maioria de artistas brasileiros.
Colunista
Glaucia ArboleyaNewsletter da efe
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